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13-12-2005 12:52:18
Os segredos do caminho da aplicação das potencialidades das Tecnologias de Informação e Comunicações ao sector da Saúde parecem ter sido já desvendados pelo Mundo fora mas, em Portugal, a visão para salvar a saúde da bancarrota pertence apenas ao sector privado. Uma questão impõe-se: os gastos em TIC serão sempre uma despesa?

Na antecipação de mais um eHealth World, a mesa redonda organizada pelo Computerworld evidenciou a cada vez maior inevitabilidade do investimento em Tecnologias de Informação e Comunicação para corrigir a evolução do sector em Portugal. Paulo Reis,da Ericsson, José Costa da Intersystems, Duarte Conceição, da Sun Microsystems Portugal, e Jaime Falcão da Accenture, colocaram durante duas horas as suas ideias em cima da mesa.

 

O mais "alarmista" terá sido Jaime Falcão, ao dizer que Portugal não conseguirá suportar o sistema nacional de saúde tal como ele hoje existe e funciona. Mas será que o consultor pode ser classificado como tal? Reduzir custos e optimizar processos para desperdiçar menos parecem ser as ideias aceites por todos.

 

A integração de sistemas de forma normalizada, será transversal a estes objectivos. Mas falta escolher um modelo, um esqueleto, e preenchê-lo com pessoas motivadas (outro desejo difícil de concretizar, entre os profissionais da saúde!), processos optimizados e tecnologia padronizada. E, claro, é cada vez mais importante avaliar e medir, para corrigir, confirmar e…convencer os mais teimosos.

 

 

Computerworld

 

Qual é o balanço que fazem deste último ano na área da Saúde, em Portugal?

 

Duarte Conceição (Sun Microsystems)

 

Do meu ponto de vista avançou-se um pouco na área da Saúde mas continuam a faltar determinadas estruturas e definições. Por exemplo, no Plano Tecnológico, em relação à Saúde, continua a não existir sustentação e informação, exactamente porque acabam por haver só decisões unilaterais e a sociedade que vai trabalhar com essas entidades não é envolvida nessas decisões.

 

Há uma aproximação às TI mas continua a faltar a aproximação do profissional de saúde ao cidadão, existe pouca afluência de informação em todas as unidades de saúde, nomeadamente hospitais, centros de saúde, e áreas de investigação – mesmo que esta seja uma das áreas onde pode ter evoluído mais, ao contrário do campo dos cuidados clínicos propriamente ditos.

 

O problema é que existem muitas vezes decisões unilaterais e o que acontece é que as definições de sistemas e de infra-estruturas são olhadas somente por uma entidade e não por todos os profissionais de saúde.

 

Paulo Reis (Ericsson)

 

Houve mudanças importantes, como a do ministro da Saúde, que é agora uma pessoa que conhece os problemas da área e parece querer mexer um pouco com ela. A Ericsson só a meio do ano começou a olhar com mais atenção para o sector da Saúde, mais cá em Portugal só agora estamos a começar.

 

Contudo saudamos certas iniciativas do governo, como a criação da Unidade de Missão para a Rede de Cuidados Primários que acho bastante importante porque é a espinha dorsal do Sistema de Saúde Público.

 

O documento emitido é interessante porque interfere com tudo o que está relacionado com os centros de saúde. É uma forma diferente daquilo que nós temos hoje. Também é referido no documento que é necessário modificar os sistemas de informação existentes na Rede de Cuidados Primários. Aquilo que nos é dito é que têm um programa fornecido pelo IGIF, mas que não é utilizado.

 

E continuamos a não ter interligação entre as instituições do Sistema de Saúde. Ou seja, entre a rede de cuidados primários e a rede de cuidados secundários não há histórico, e isso é grave. Por exemplo, vou a um centro de saúde e digo-lhe que me dói uma perna, amanhã vou ao mesmo centro de saúde queixar-me de outra coisa, e não têm indicações de que estive lá anteriormente.

 

Apercebemo-nos também que vai haver mudanças profundas no IGIF, o qual passará de software house para regulador. Pode ser bastante importante e liberta o mercado, liberta as empresas nacionais que desenvolvem tecnologia.

 

Por fim, queria só acrescentar que a Estratégia de Lisboa delineada para Portugal foi apresentada com cerca de 125 medidas, e na área da Saúde só reparei numa medida, ligada à política do medicamento e mais nada.

 

José Costa (Intersystems)

 

Eu gostaria de diferenciar dois aspectos importantes. Um é a Administração Pública e outro é a saúde privada. Estou de acordo com o que disseram os meus colegas sobre a mudança de governo e a interligação com a Administração Pública. Há uma política de corte de gastos no próximo Orçamento de Estado que é relevante em vários sectores.

 

No entanto, penso que a Saúde não é um desses sectores, mas existem muitas carências neste sector. Como por exemplo, se tiver de ir ao hospital de São José por causa de uma urgência e no dia seguinte sofrer um acidente de automóvel e precisar de ir ao hospital de Santa Maria porque estou mais perto, não há intercomunicação, ou seja, não têm a minha ficha clínica do doente.

 

Isto é um ponto no qual as TI podem ajudar. Devo lembrar que o IGIF, onde continuamos sem controlo, tentou fazer vários projectos em TI, nos quais se gastaram milhões de euros e não há nada completamente implementado.

 

Por outro lado, no sector privado há vários grupos empresariais que estão a apostar fortemente na área e estão a tentar fazer novos projectos aproveitando a capacidade das suas entidades financeiras. Também temos de considerar outra parte importante, que são os Hospitais S.A., hospitais de gestão privada, que por vezes não têm fundos nem meios económicos para iniciarem projectos de TI, necessários e prioritários.

 

A situação concreta é que quem tem condições deve investir, pois todos nós temos direito a uma saúde pública e devemos ser uma prioridade. Já as PPP (Parcerias Público Privadas) estão também com projectos de novos hospitais nos quais as TI têm um papel muito importante. É a nossa oportunidade de criar, de raiz, projectos de TI que estabeleçam a intercomunicação entre as várias unidades de saúde de uma determinada região.

 

Jaime Falcão (Accenture)

 

Em Portugal continuamos a encarar a Saúde como o sector da transformação adiada. Se o adiamento for bem aproveitado para se estruturar uma visão de futuro, para se consolidar o modelo de funcionamento e para se criarem as bases de alguma coisa que possa ser sustentada a médio prazo, é positivo, mas se esse tempo for utilizado apenas para a discussão sobre todas estas vertentes sem chegar a nenhuma conclusão é apenas um adiamento e desperdício de tempo.

 

A Saúde em Portugal requer uma profunda transformação, e é um sector que nós não temos capacidade de sustentar. E portanto deve-se trocar despesa por investimento, para a médio prazo termos uma factura mais baixa.

 

Penso que o seminário deste ano que fala da optimização de processos como factor de redução de custos tem um foco importante porque permitirá ouvir um conjunto de pessoas a falar sobre as suas expectativas e das suas experiências nestas áreas que são muito importantes para a Saúde.

 

Aquilo que penso que irá acontecer no futuro, em termos de projectos a serem lançados, não vai, muito provavelmente, diferir muito das ideias já existentes há dois anos ou três sobre o que faz falta neste sector. Uma das coisas em que acredito é que antes de gastar ou investir dinheiro em TI devemos ter uma visão sobre o modelo de funcionamento do sector da Saúde.

 

Esse sector é cada vez mais heterogéneo, já não é só o Serviço Nacional de Saúde, é um sector no qual os privados estão a posicionar-se. Existe todo o sector social que também tem de fazer parte dessa rede e existe uma interacção crescente entre aquilo o que é a vertente da saúde e a vertente da acção social, mesmo dentro do próprio Estado. Na minha opinião as duas áreas devem estar cada vez mais ligadas.

 

O actual Governo, por exemplo, tem procurado desenvolver várias acções no sentido de definir esse tal modelo de funcionamento: o caso da rede dos cuidados primários que está a ser discutido e pensado em termos de modelos de funcionamento; o apoio a idosos e a integração da acção social, juntamente com o Ministério da Saúde para prestarem cuidados continuados e cuidados de proximidade.

 

Por isso, parece-nos meritório o facto de estarmos a tentar encontrar o modelo de funcionamento para a Saúde antes de começarmos a fazer os investimentos que são necessários para sustentar esse modelo. No entanto, vejo com alguma reserva o facto de as peças deste modelo estarem a ser definidas de uma forma relativamente isolada, por temas ou por escalões.

 

Ainda não existe um “blueprint” ou modelo de integração das redes primárias com as redes de cuidados continuados. A definição dos mecanismos de interacção não estão claros, discutem-se ainda os vários modelos. O importante é que se comecem, façam e acabem os projectos.

 

Em Portugal continua a haver a tendência de que estes adiamentos se prolonguem porque vamos discutindo a validade de todas estas questões até à exaustão e não paramos para chegarmos a nenhuma conclusão.

 

Aquilo que eu gostaria de ver a curto prazo seria a existência de um “blueprint” no sector da Saúde em Portugal e que esse “blueprint” fosse desenvolvido até um certo ponto e que fosse assumido para a partir daí poder desenvolver-se projectos de carácter estruturante, para sustentar esses modelos do ponto de vista das TI. À partida esses projectos devem ser feitos por quem sabe fazê-los.

 

O Estado, por exemplo, não tem capacidade para fazer projectos estruturantes, mas sim para promover, regular, discutir e para disponibilizar especialistas a trabalharem nestas coisas.

 

Daqui a uns anos vamos ter um país ainda mais envelhecido e isso implica maiores cuidados na área da Saúde e, no meu ponto de vista, dever-se-ia passar dos modelos estruturantes para modelos funcionais. É necessário ter uma visão do modelo operacional para podermos fazer o investimento correcto.

 

 

Computerworld

 

Na vossa opinião quais são, hoje em dia, os principais problemas que as organizações enfrentam? E como se podem reduzir os custos e optimizar processos?

 

Duarte Conceição

 

Uma das dificuldades existentes hoje em dia é a falta de envolvimento entre todas as áreas neste sector. No entanto, o maior desafio que pode haver na Saúde é saber como investir quando a despesa tende a aumentar nos próximos anos.

 

Teremos de reinventar o modelo económico para a Saúde. No meu ponto de vista, a Saúde em Portugal vai passar pelo modelo privado, e penso que vamos deixar de ver o Serviço Nacional de Saúde como o vemos hoje em dia.

 

Paulo Reis

 

A utilização das TI representa por si só uma redução de custos. Esta utilização obriga a uma redefinição de processos. A introdução, de uma forma eficiente, das TIC na rede de cuidados primários poderia permitir o desaparecimento do papel que temos de levar do consultório médico até à farmácia.

 

No entanto, há um processo que é implementado, dentro dos Sistema de Informação, que interligaria estas instituições. De uma forma geral penso que a aplicação das TI neste sector gera por si só uma redução de custos e vai optimizar os processos.

 

José Costa

 

Quando olhamos para a optimização dos custos num país onde existem várias tecnologias, vários sistemas de informação, no sector privado e no público, que na realidade funcionam e dão uma resposta eficaz, deparamo-nos com uma falta de continuidade desses processos.

 

O problema é que se vou a consultas com médicos diferentes acabo por ficar com três receitas, três fichas de doente, e um conjunto de factores que me estão a pesar num custo total.

 

Para mim, a melhor forma é aproveitar os sistemas de informação que estão bons e a funcionar, que foram desenvolvidos para determinados departamentos e tentar arranjar a unificação desses sistemas de forma a que possa haver um ficheiro único com o historial do paciente, em qualquer região.

 

Esta é uma forma de optimizar de forma a reduzir bastante os custos.
As TI deveriam ser um ponto de investimento por parte dos privados com o apoio do Estado de forma a beneficiar todo esse sistema.

 

A capacidade dos privados é superior aos públicos porque geralmente têm entidades financeiras por trás e enquanto que para o Estado é um serviço público que tem de ser dado a todos os cidadãos, para as entidades privadas acaba por ser um negócio.

 

Jaime Falcão

 

As soluções para a Saúde não são diferentes das soluções dos outros sectores. A redução de custos é feita gerando a utilização dos recursos escassos. Temos de saber quais são e temos de promover a sua rentabilização. No caso da Saúde, esses recursos escassos são profissionais e equipamentos técnicos de grande valor, que têm de estar optimizados.

 

Outro factor importante é evitar redundâncias, e existem muitas no nosso país. Na Saúde ainda não se consegue optimizar a utilização dos recursos técnicos. Precisamos de uma redução clara do desperdício que existe.

 

Ele é uma consequência natural do trabalho desenvolvido, mas tem de ser analisado, discutido e reduzido. Associado a ele está o conceito de normalização; quanto mais padronizados forem os meios de processo e formas de operação, menores são os custos.

 

No caso da Saúde esta questão passa pela normalização dos protocolos clínicos, passa por identificarmos como é que tratamos as pessoas em função das suas patologias, recorrendo a técnicas de medicina legal e evidência, para perceber o que é realmente eficaz, e através dessa padronização, ganharmos uma maior simplicidade na gestão e na capacidade de reduzir desperdício. Tudo isto potencia uma maior participação dos recursos técnicos e humanos.

 

Um outro factor importante é a integração. Ter recursos optimizados numa perspectiva da Saúde, exige a capacidade de estabelecer uma interligação dentro de uma dispersão geográfica numa rede de saúde para utilizar bem os recursos escassos. A telemedicina é um exemplo.

 

José Costa

 

Penso que é relevante não esquecer que a forma de operar difere nas várias zonas do país, pelos seus hábitos culturais ou por hábitos de consumo, etc. Se houvesse uma rede nacional com os registos de todas as pessoas, seria muito mais fácil atender as pessoas.

 

Nesse registo podia ser facilmente consultada informação sobre o paciente, como por exemplo, as suas patologias anteriores. A parte administrativa também precisa de ser optimizada. Seria útil os serviços terem conhecimento sobre como facturar, quais as companhias de seguros a que tenho direito, e todo esse tipo de informação. Isto facilita a optimização dos recursos.

 

Contudo em vez de estar a gastar muito dinheiro numa plataforma de rede nacional logo de início, dever-se-ia começar por aglomerar distrito a distrito.

 

Paulo Reis

 

A normalização é de facto muito importante para a redução de custos. Existem standards operacionais aceites por grande parte dos fornecedores de TI, cuja utilização é fundamental se nós quisermos que haja fluência de informação e integração entre sistemas de fornecedores diferentes.

 

Podemos referir as bases de dados das clínicas para as quais existem standards de comunicação de mensagens e protocolos.
Outra palavra-chave para a Ericsson é a integração. Hoje em dia, todos os hospitais, sejam públicos ou privados, têm sistemas de informação, mas têm os departamentos divididos em ilhas e é por isso que quando nós chegamos às urgências de um hospital e não têm dados nenhuns sobre nós, assim como quando fazemos algum exame.

 

Se houver uma integração dentro de um hospital, utilizando os standards que existem para esse efeito, deixa de haver a necessidade de replicação desta informação, e passa a haver recursos que podem ser libertados para outras tarefas. Na optimização dos processos, os médicos e todas as pessoas que trabalham neste sector da saúde têm de ser trazidos para dentro daquilo que é a tecnologia.

 

As pessoas têm de aprender a trabalhar com a tecnologia para se aperceberem das suas vantagens. Todos falam de Plano Tecnológico, mas a maioria não se apercebe da importância que é trazer as pessoas do sector para a tecnologia; não se deve apenas disponibilizá-la.

 

É demorado mas poderá trazer grandes benefícios ao sector. E esse trabalho tem de ser feito pelo Ministério da Saúde, eventualmente em conjunção com o Ministério da Educação.

 

Duarte Conceição

 

Existem também dois factores cruciais na optimização de custos e na redução dos mesmos. Um deles é a questão da consolidação da informação de todas as entidades governamentais. Cada unidade tem o seu sistema, não partilha, não comunica e há um custo acrescido, em termos de aquisição e de manutenção.

 

As unidades de Saúde são compostas por quatro áreas; clínica, logística, financeira e recursos humanos. Estas quatro áreas devem ser vistas de um ponto de vista de redução de custos, e devem estar interligadas. Sabemos que numa grande percentagem das consultas, o tempo dispendido pelo profissional de saúde, muitas das vezes não é para efectuar cuidados primários.

 

Na maior parte, são cuidados de acompanhamento. Esta questão revela custos acrescidos. Há cerca de um ano, foi feito um estudo da Boston Consulting, no qual se registou que uma grande percentagem de profissionais de saúde, em França, Alemanha e Suécia eram médicos “online”.

 

O acompanhamento do paciente era feito de forma não presencial, mas sim utilizando sistemas de informação, como o e-mail, vídeo-conferência, fórum, etc. É necessário formar os profissionais de Saúde para adoptarem estas novas tecnologias e mais importante ainda, educar os cidadãos para que adoptem as mesmas.

 

Por vezes  existem investimentos dirigidos aos profissionais de saúde, mas os utentes não aderem facilmente nestas tecnologias por terem algum receio.

 

José Costa

 

Existem realmente alguns países que podem utilizar esses sistemas, mas em Portugal não me parece que o sistema seja facilmente adaptável. Isto acontece devido à nossa forma de ser e de estar, porque geralmente os portugueses gostam de comunicar cara a cara com os médicos, mesmo que seja para lhes dizer que não têm problema de saúde nenhum.

 

No caso das entidades privadas, para reduzirem os seus custos, elas permitem de uma forma online, que os pacientes possam fazer a marcação de consultas, possam ver quais são as listas de espera a partir de suas casas ou locais de trabalho. Este tipo de sistemas permite fará mais sentido e permite aos pacientes pouparem tempo nas deslocações.

 

Paulo Reis

 

Não me parece que os médicos sejam um entrave à utilização de tecnologias. A maior parte deles vai ao estrangeiro para fazer a sua reciclagem e observam os outros médicos a utilizar as novas tecnologias, portanto sentem também a necessidade de procurar informação sobre esta área.

 

José Costa

 

Penso que há determinadas situações nas quais os médicos estão menos receptivos à implementação de TI. Eles por vezes não querem assinar um óbito ou uma operação porque não querem assumir responsabilidades, e isso com as TI fica registado no sistema de informação. Muitos médicos, recusam-se a utilizar esse sistema para não assumir determinadas responsabilidades no caso de um medicamento ser mal administrado.

 

Paulo Reis

 

Eu não conheço todos os trâmites médicos mas, que eu saiba, quando se faz uma análise do paciente e se identifica qual o problema que ele tem, penso que a maior parte dos médicos segue os chamados protocolos clínicos indicados pela Ordem dos Médicos, e que acabam por ilibá-los da responsabilidade, que não é só deles, mas de uma Ordem acima deles.

 

José Costa

 

Em Madrid há actualmente um caso polémico, no qual um dos médicos de um dos principais hospitais de Madrid está a ser julgado porque deu determinadas anestesias a vários doentes e apenas num ano e meio morreram 400 pessoas.

 

Essa responsabilidade passou por estarem registados nos sistemas de informação quais as quantidades administradas, quem as administrou e quem deu a ordem. Há um conjunto de factores e de responsabilidade civil que muitas vezes os médicos não querem assumir.

 

 

Computerworld

 

Neste sector, como é que se avalia o sucesso da implementação das TI e com que métricas?

 

Jaime Falcão

 

Em primeiro lugar, acho que só é possível avaliar alguma coisa quando temos claro quais são os objectivos. Depois, ter processos de avaliação apenas para efeitos de benchmarking não serve para nada. Um processo de avaliação tem de ser consequente, tem de permitir corrigir situações, e tomar acções que conduzam ao objectivo do negócio.

 

Eu acredito que temos, em primeiro lugar, de adoptar uma visão, onde a prestação de cuidados de saúde é uma actividade distinta do exercício da medicina. Precisamos de profissionais de saúde para a prestação de cuidados de saúde, e o exercício da medicina é uma actividade específica desses profissionais. É difícil avaliar a qualidade dessa arte.

 

A optimização de um sistema de Saúde, implica instituir métricas de avaliação da prestação de cuidados de saúde. Isso tem a ver com a forma como são operacionalizadas todas as peças desse sistema. Portanto, ter métricas de produtividade, ter métricas de utilização de recursos críticos, ter métricas de qualidade de desempenho numa perspectiva do utente, de listas de espera, dos custos associados a intervenções, tem a ver com a forma como os cuidados são prestados e não com o exercício da medicina.

 

Não temos de inventar métricas muito complicadas, são as métricas tradicionais de qualquer actividade O que temos de esclarecer é o portfólio de métricas a usar, ter uma visão de “balanced scorecard” aplicável em função dos diferentes tipos de actuações analisadas, e que seja padronizada para todas as unidades de uma determinada estrutura.

 

 

Computerworld

 

Como é que se mede a integração?

 

Jaime Falcão

 

Mede-se a partir dos tempos de resposta a determinadas solicitações a partir de um eu da rede, até ao momento em que o episódio desse utente está solucionado, havendo  intervenção da unidade legal de saúde, mas também uma unidade de cuidados continuados.

 

A integração mede-se olhando para esse utente como sendo o requerente, mas identificando os serviços prestados por cada uma destas unidades.

 

 

Computerworld

 

Existem factores mais difíceis de medir? Quais são?

 

Jaime Falcão

 

Na perspectiva da prestação de cuidados de Saúde, diria que aquilo que é mais difícil de medir é tudo o que tem a ver com a duração média de episódios, tudo o que tem a ver com os custos associados à prestação desses cuidados, que são dependentes dos factores de alguma dimensão aleatória existente nos cuidados médicos.

 

Isto não quer dizer que não é possível o estabelecimento de benchmarkings. A lógica da Medicina, baseada na evidência, é exactamente potenciar através de demonstrações analíticas de estatísticas, a comparabilidade de situações clínicas que levam a definir standards aproximados.

 

A definição de protocolos standards para departamentos de patologias tem a ver com a possibilidade de com análises de informação, tipificar quais são as melhores e as piores práticas.

 

José Costa

 

Há uma métrica que, segundo penso, é sensível ao utente, que são as listas de espera. Esta é uma das métricas nas quais as TI podem ajudar. Os recursos são fundamentais, mas as TI podem ajudar na parte da integração, ou seja a dar resposta imediata a determinados diagnósticos.

 

Facilita-se a comunicação entre os profissionais de saúde e os utentes, que passam a receber mais cedo as suas análises e exames.

 

Paulo Reis

 

Mas como são criadas as listas de espera? Temos de começar por esta questão, temos de tentar perceber o que as origina. Outra questão é por exemplo tentar saber quantas pessoas em Portugal sofrem de cada problema de Saúde. Será que é possível obter esta informação através dos actuais sistemas de uma forma eficaz e rápida?

 

 

Computerworld

 

Mas em relação ao que já está instalado em Portugal, não há já benefícios?

 

Paulo Reis

 

O que existe instalado em Portugal está disperso, não está integrado. Havendo uma interligação entre centros de saúde numa base de dados semi-centralizada, talvez por distritos ou regiões, permitirá obter bastante informação estatística, e de um ponto de vista de métrica permite ver a eficiência dos sistemas que actualmente não conseguimos medir.

 

Duarte Conceição

 

Além de informações de organismos nacionais, a Organização Mundial de Saúde já tem há bastante tempo um modelo de análise de desempenho dos sistemas de saúde.

 

Nós podemos retirar daqui alguns vectores e construirmos uma matriz para perceber como é que os sistemas de informação podem ajudar neste sector. Eu escolheria três vectores: eficácia, resposta e eficiência. A eficácia no sentido de promover a saúde, da prevenção da doença, do acompanhamento e do controlo.

 

A resposta estaria ligada aos tempos de espera que o sistema de saúde dá aos seus utilizadores. Em termos da eficiência, teria a ver com a promoção de escassos recursos e a sua gestão.

 

José Costa

 

Penso que não é necessário estabelecerem-se 500 métricas. Deve-se é apresentar as 10 métricas mais produtivas. O sector da Saúde, tem uma questão distintiva que é o facto de ter o factor político por trás, e muitas vezes mostram-se várias métricas só para apresentarem alguma coisa na Assembleia da República.

 

As questões importantes acabam por não ser salientadas. Em Portugal existem muito poucas métricas a ser implementadas. Mas isto também acontece em Espanha. Realmente nota-se que começa a haver uma maior preocupação sobre isso.

 

Paulo Reis

 

Em relação à medição da eficácia dos sistemas implementados, muito pouco tem sido feito no país. O software que tem sido implementado, quer nos hospitais quer nos centros de saúde, é software que provém do IGIF. Na minha opinião as métricas que existem em Portugal não têm dado grandes resultados.

 

Jaime Falcão

 

Penso que irá sempre haver ajustes a fazer, por isso não podemos esperar que esteja tudo resolvido ao pormenor para avançar. E depois é preciso avaliar de facto a eficácia das várias componentes tecnológicas ou dessas componentes de contributo.

 

É necessário é que este plano seja concluído rapidamente, que o mercado seja claro em relação à arquitectura necessária para que os intervenientes estejam no mesmo quadro de referência.

 

 

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