Atrair riqueza ou “suspensórios”​

Fala-se muito em atração de investimento externo como uma forma de criação de riqueza mas uma coisa não tem nada a ver com a outra, considera Carlos Costa, director de marketing e desenvolvimento de negócio com parceiros, na Quidgest.

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Carlos Costa, director de marketing e negócio com parceiros, na Quidgest

O Luxemburgo, a Suíça e Macau ocupam o topo da tabela dos locais mais geradores de riqueza per capita do mundo. E são todos muito mais pequenos do que Portugal, posicionado por volta da 40ª posição atrás de muitos outros, com recursos semelhantes e tamanho menor, como a Irlanda, a Áustria ou a Dinamarca.

Um cidadão no Luxemburgo (muitos deles de nacionalidade portuguesa) cria, em média, cinco vezes mais riqueza do que nós. Porque será?

Certamente estarão razões de organização e disciplina mas será, sobretudo, devido a maior inteligência económica dos cidadãos e dos seus líderes locais. Seja com investimento local ou estrangeiro, uma boa percentagem da riqueza gerada fica retida nesses países.

Enquanto não percebermos bem a diferença entre atração de investimento externo e de geração de riqueza, enquanto não mudarmos o paradigma de preferir, a qualquer preço, o produto, o serviço e, especialmente, o investimento estrangeiro, ao que temos de melhor a nível local, manteremos sempre a nossa posição nos lugares mais baixos dos campeonatos económicos, tanto a nível europeu como mundial.

Quando se cria por exemplo uma fábrica local, com investidores locais e se vende toda a produção para fora da região podemos falar em atração de riqueza pois toda a receita fica nesse local. Quando, numa dada região, apenas se oferecem condições para a instalação de uma fábrica que é propriedade de investidores estrangeiros, apesar da criação de emprego local, mesmo com salários dignos, grande parte da riqueza criada vai, obviamente, para fora dessa região.

Não compreendo, pois, porque não se comemoram com mais ênfase as iniciativas locais de criação de riqueza e exportação, nem o porquê de tanta festa, até com a presença de ministros e presidentes, quando da inauguração de fábricas estrangeiras.

“Suspensórios”

Vou usar uma história para tentar clarificar melhor o que penso sobre a diferença entre atração de investimento direto estrangeiro (o chamado IDE) e o investimento direto local (para atração de riqueza externa, como é o caso por exemplo do Turismo que sabemos fazer muito bem). Se umas calças estiverem muito largas, podemos apertá-las ou engordar.

A solução dos “suspensórios” também é boa mas não é a melhor. É apenas uma situação de emergência. O IDE também pode ser assim. Bom no imediato mas pobre, como visão sustentável estratégica de longo prazo.

Durante muitos anos ouvimos falar de apoios europeus à nossa atividade económica. E isso parece que ficou enraizado na nossa sociedade como a melhor coisa que temos a fazer para gerar riqueza.

Fazer um bom projeto e pedir um subsídio para o executar mesmo que não dê grande resultado. Não podemos dizer que isto é mau. Mas, espero que concordem comigo, estamos a falar, também nestes casos, apenas de “suspensórios”.

Criar, inovar e exportar

A geração de riqueza pressupõe outro tipo de dinâmica mais ousada. Idealizar, inovar, produzir e vender algo com valor para o mercado, preferencialmente, a nível global. Se for com algum apoio tanto melhor mas, todos sabemos que muitos dos produtos, serviços e empresas de grande sucesso mundial começaram numa garagem.

É o caso das canoas Nelo, do calçado. do vinho e do turismo, mas, porque não, também do software? Com um baixo investimento consegue-se criar uma fábrica de software em qualquer parte do mundo.

O processo de exportação é muito mais fácil do que outro qualquer bem transacionável e o software inclui valor intelectual dos melhores recursos humanos locais. As compras públicas também têm um papel importante neste domínio.

De acordo com o reputado economista, o professor Augusto Mateus, elas devem apoiar os elementos endógenos, preferindo a inovação local e respeitando, obviamente, as leis comunitárias de livre concorrência.

Vantagens da atração de riqueza

As regiões que conseguem criar este mecanismo de atração de riqueza têm um nível médio de vida superior e estão mais imunes a crises sociais ou políticas. Nos anos de ditadura em Portugal sei de regiões com grande prosperidade que quase não sentiram a grave crise económica e financeira que se vivia em geral. Atualmente, locais como a Marinha Grande, Oliveira de Azeméis, S. João da Madeira, Campo Maior ou o Algarve são como que ilhas de prosperidade, especializadas, dentro de um país ou um continente cheio de assimetrias económicas.

A nível internacional a situação é idêntica. Silicon Valey (tecnologias de informação), Baviera (automóveis) ou Leverkusen (químicos) são algumas das regiões de grande nível que me ocorrem assim de imediato.

Boicote à geração de riqueza

Há, no entanto, várias formas de travar ou mesmo desacreditar este modelo básico de prosperidade baseado no investimento local. Um empresário local que gera riqueza só para si ou para um número restrito de habitantes e, além disso, envia os lucros para offshores e importa do estrangeiro os seus Ferrari, reduz ou destrói as vantagens acima referidas.

Um Estado que cobra impostos astronómicos e, além disso, importa do estrangeiro produtos e serviços iguais ou piores do que os que tem localmente, é um enorme travão ao progresso da região que administra. Uma empresa que gasta toda a sua energia a disputar o mercado local em vez de se associar e procurar novos mercados além fronteiras, é uma doença económica difícil de curar. Nestas situações, sim, é preferível o mau investidor externo ou até a emigração.

Prosperidade

Mas atenção! Não é o modelo de atração de riqueza pela criação de valor local que está errado. São os empreendedores, responsáveis políticos e líderes de opinião que, por ignorância, negligência, ambição desmedida ou pobreza de espírito, travam o processo, bem como os cidadãos que os aceitam e até veneram. É dedicado a eles este texto.

Um ecossistema de atração de riqueza, seja em Portugal ou qualquer outra região do globo, é sempre muito mais próspero, motivador e visionário mesmo que possa parecer sonhador e ingénuo. Um ambiente sofredor de mão estendida e calças na mão é muito mais pobre e desconfortável. Nesse caso, os suspensórios (não são mas…) sim, até parecem uma boa solução.

Macau, por exemplo, não tem dívida externa e tem o quinto maior PIB per capita do mundo. É uma região especial, com mais receita que despesa. Por cá, segundo dados recentes do Banco de Portugal, a dívida externa líquida ficou nos 174,6 mil milhões de euros no final de 2016, representando 94,5% do Produto Interno Bruto (PIB), “o valor mais baixo desde março de 2012”.

Esta parece ser uma boa notícia embora, segundo consta, a redução se deva mais à forte contração do investimento público e a fatores exógenos, do que a uma verdadeira geração de riqueza local e aumento das exportações.




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