Os gregos

Despesismo, austeridade, equilíbrio e provas de conceito, na perspectiva de Carlos Costa, 
director de marketing e desenvolvimento de negócio com parceiros, na Quidgest

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Carlos Costa, director de marketing e desenvolvimento de negócio, na Quidgest

Contaram-me há dias que o Serviço Nacional de Saúde grego é extremamente mau. Parece que há apenas um bom hospital público ortopédico, em Atenas e, se temos o azar de partir uma perna numa das ilhas gregas, demoramos meio-dia (de barco) até chegar ao hospital. Como não há gesso, os profissionais de saúde colocam umas talas provisórias.

Por isso, os gregos que podem subscrevem seguros de saúde caríssimos, que incluam transporte de emergência de helicóptero. Não é uma situação equilibrada.

As várias centenas de milhões de euros europeus esbanjados pelo estado grego, até 2010, na atribuição a particulares de empregos fantasma, de prestações de saúde e pensões falsificadas, importações desnecessárias e em outros atos governativos fraudulentos, só podiam ter estas consequências austeras.

Despesismo nacional em software importado

E conto isto porque me fez lembrar algo semelhante cá em Portugal ao nível dos Sistemas de Informação de Gestão. Há grandes e pequenas empresas e organismos públicos nacionais, com grandes desequilíbrios orçamentais. Por um lado, faltam equipamentos e materiais básicos para o seu adequado funcionamento e, por outro, gastam-se milhões de euros, anualmente, a importar coisas desnecessárias como, por exemplo, o software de contabilidade, faturação e vencimentos.

Fora as PME’s e os ajustes diretos mais difíceis de detetar, só em 2016, no Estado, identifiquei concursos públicos para licenciamentos e manutenção de software importado, à volta dos 50 milhões de euros. Este valor vai quase todo para fora e não cria qualquer novo posto de trabalho ou riqueza local (lícita).

É escandalosamente caro este software mas, como é de uma boa marca, quem é que se atreve a colocar em causa a sua substituição, mesmo que haja erros, falhas, improdutividades ou insuficiências no seu funcionamento? O diretor financeiro sente-se assim como um deus grego e, só vai sair da sua zona de conforto, se for mesmo obrigado.

O diretor de informática nem quer tocar no assunto pois tem mais com que se ocupar. E o Presidente (CEO) provavelmente não sabe que há alternativas muito mais económicas, ágeis e evolutivas.

Apelo ao CEO

É para si este texto. Para pelo menos pedir uma prova de conceito a outras empresas de software de gestão, preferencialmente nacionais, muito mais próximas da realidade económica e legal local.
Claro que todos gostamos de um bom produto de uma boa marca. Somos todos um pouco gregos na adoração de Afrodite ou Apolo.

A vaidade faz parte da natureza humana. E bem equilibrada até é boa para todos. Mas quando se levam as situações ao extremo, especialmente quando falamos de sistemas rígidos estrangeiros, de marca e de valores astronómicos (para a nossa dimensão) de dinheiro público, na sua importação, instalação e manutenção, todos ficamos mais pobres como sociedade.

Prova de conceito rumo ao equilíbrio

A minha sugestão é, que as organizações com custos demasiado pesados em software de gestão importado, inadequado e pouco flexível, peçam provas de conceito, com calma, enquanto ainda é tempo pois, de uma forma ou de outra, a Transformação vai chegar. Há soluções alternativas de software de gestão nacionais melhores e mais ágeis.

Há até outras abordagens como, por exemplo, o outsourcing de serviços administrativos e financeiros. Muitas delas são já usadas por grandes organizações, nacionais e multinacionais e estão a conseguir um excelente desempenho nas exportações.

Resumo

Gosto muito do povo grego e dos portugueses. Porém, nesta componente do despesismo, acho que temos ambos, muito para equilibrar, se quisermos seguir caminhos melhores que a austeridade.

É também produzindo e exportando riqueza, ao mesmo tempo que consumimos produtos e serviços locais de qualidade, que estaremos na linha da frente dos europeus mais felizes e com maior qualidade de vida. A engenharia de software portuguesa pode contribuir decisivamente neste sentido. Não numa lógica protecionista ou nacionalista tipo Trump mas em livre e saudável concorrência.




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