As TIC e o mar

A ligação entre as TIC e a economia do mar é analisada por Tiago Pitta e Cunha, presidente do 22º Congresso das Comunicações, que ocorre na próxima semana, em Lisboa, precisamente sobre o tema “Um Mar de Oportunidades”.

Introdução
Não será claro para todos a ligação das TIC ao mar ou, como hoje se costuma dizer, à “economia do mar”. As primeiras são empresas ligadas a tecnologia de ponta e à inovação. A economia do mar, pelo menos em Portugal, é geralmente associada a sectores tradicionais como as pescas, os portos e aos transportes marítimos distantes dos níveis de inovação e de investimento em investigação e desenvolvimento que caracterizam os sectores “clientes” das empresas TIC.

Mas há uma ligação das TIC à “economia do mar” e um grande potencial para reforçar essa ligação.

A economia do mar é um sector em crescimento
A importância da economia do mar, no dealbar deste século XXI, é clara e o seu crescimento será inexorável. Fala-se numa corrida aos oceanos para extração de recursos naturais, incluindo energéticos, para ocupação de espaço e uso de novas tecnologias, ou para fazer progredir áreas-chave do conhecimento científico e compreendermos melhor o (estado) do planeta.

O aumento da importância do mar justifica-se igualmente porque há uma forte componente marítima em muitos dos grandes desafios que enfrentamos à escala planetária. A globalização continua a aumentar e não é mais do que o crescimento do comércio mundial e das trocas entre países, sendo que 90% desse comércio é realizado pela via do transporte marítimo.

Globalização significa, assim, mais portos, logística, transporte marítimo (embarcações) e construção e reparação navais, o que requer novos investimentos e uma incorporação elevada de TIC. O desafio energético, por sua vez, implica um aumento exponencial da exploração offshore de combustíveis fósseis, com ênfase no gás natural (40% do petróleo e 60% do gás natural consumido hoje na Europa é gerado no offshore), bem como no desenvolvimento de energias renováveis (eólica, ondas ou biodiesel gerado por macro-algas). A segurança do fornecimento energético, outro dos desafios que a Europa, em especial, enfrenta e requer maior variedade das rotas e meios de transporte energéticas, o que significa mais transporte de energia por mar, mais terminais portuários energéticos e maior uso do mar para pipelines e gasodutos.

As alterações climáticas também implicam o mar em todas as suas vertentes: pela absorção no mar de grande parte do CO2 emitido, pelo papel do sistema oceânico na regulação do clima e na mitigação dos efeitos das alterações climáticas, pelo impacte que essas alterações causarão nas zonas costeiras e pelos investimentos colossais que irão ser feitos na adaptação dessas zonas aos impactos negativos das alterações climáticas. De tudo isto resulta que, cada vez mais no futuro, será necessário saber com antecipação o clima do mar, prevendo-o, prevenindo alterações e monitorizando-o. Ou seja, como para a nova e crescente indústria da energia offshore, também para a indústria do clima, da investigação do mar e do conhecimento dos riscos ligados às alterações climáticas as TIC serão determinantes.

O mesmo é válido para desafios ligados à preservação da biodiversidade marinha e ao consequente surgimento de sectores da economia ligados à monitorização, à gestão e à preservação do ambiente e dos ecossistemas marinhos. Ou para tudo o que se prende com a segurança não apenas da navegação, mas de um continente como a Europa, em que dois terços das suas fronteiras são fronteiras marítimas. Ou seja, também os desafios ambientais e de segurança com que nos confrontamos incluem uma forte componente marítima e também eles vão exigir novos investimentos e o auxílio das TIC.

Portugal e o mar
Compreender isto é compreender alguns dos fatores que irão influenciar a evolução da procura mundial nos próximos anos e décadas. E se isso é importante para qualquer país, para Portugal, que dispõe de um avassalador território marítimo, isso afigura-se primordial. Sendo certo que o País atravessou as últimas décadas virado de costas para o mar, é certo também que hoje são fortes os sinais de que isso está a alterar-se e de que o mar se está a tornar acertadamente num desígnio nacional. Sendo as TIC um sector em crescimento na economia portuguesa e com grande vocação exportadora, não deverá ignorar os grandes desígnios nacionais, mas antes constituir-se como uma ferramenta de consolidação desses desígnios.

O desígnio do mar assume-se de uma naturalidade impressionante para um país como Portugal e espanta como tem de ser reinventado. Na realidade, o país possui a maior Zona Económica Exclusiva da União Europeia, está apostado em conseguir a delimitação de uma das dez maiores plataformas continentais marítimas do mundo e possui uma localização geográfica central na confluência de continentes e de rotas mundiais de transporte marítimo. Para além disso, não obstante o desinvestimento no mar das últimas décadas, Portugal pode beneficiar de uma perceção externa relativamente forte da associação do nosso país ao mar, o que se devidamente explorado poderá constituir uma poderosa marca e logo uma mais valia (good will) para as empresas exportadoras de produtos ligados à economia do mar, incluindo as empresas TIC.

Deve referir-se que a Europa sozinha responde por 40% do mercado mundial da aplicação de TIC a sectores da economia do mar, o mercado designado de “Marine IT”, o que é explicado pela posição dominante a nível mundial da Europa nas indústrias dos transportes marítimos, construção naval e das indústrias de energia offshore. A projeção do crescimento do sector das “Marine IT” na Europa, de acordo com a consultora Douglas and Westwood, era entre 2004 e 2009 de seis vezes o valor inicial, sendo a principal concorrência gerada pela China e pela Índia.

Estes dados são relevantes porque, não obstante já haver empresas TIC atuantes nos sectores domésticos dos portos e da logística ou noutros sectores da nossa “economia do mar”, ainda assim o alvo das “Marine IT” portuguesas deverá ser também e obrigatoriamente o mercado europeu e mesmo mundial.

Este facto não deve, contudo, significar que as empresas TIC portuguesas que se desejem posicionar na prestação de produtos e serviços à “economia do mar” não devam pensar igualmente no mercado nacional. Neste mercado, para além do sector mais relevante dos portos e logística, já referido, haverá cada vez mais lugar à aplicação de TIC na automação de navios e plataformas offshore, na automação da aquacultura, nos sistemas de segurança e vigilância marítimos, nas empresas da futura green economy ligadas ao mar e ao ambiente marinho (a blue economy) e, espera-se, no futuro na exploração dos recursos naturais da extensa plataforma continental portuguesa.

Conclusão
As projeções económicas internacionais para o sector das “Marine IT” é de um franco desenvolvimento. E a forte condicionante marítima dos grandes desafios mundiais, aqui referida, reforça essas projeções. As empresas TIC baseadas em Portugal podem posicionar-se de forma mais esclarecida nesse mercado e podem contribuir de forma importante para que Portugal consolide o mar como um desígnio nacional. Essa contribuição ajudará a transformar a “economia do mar” nacional da economia antiga que hoje é numa economia inovadora, geradora de um mundo de valor.

O potencial natural do país, baseado na dimensão e na geografia, por um lado, e a perceção externa capaz de associar e assegurar uma marca forte e credível à “economia do mar” portuguesa, por outro, determinam o sucesso numa aposta na geração de valor a partir do mar. E o sector das TIC pode ser uma componente relevante dessa aposta, contribuindo para reconciliar o país com a sua geografia e para gerar do mar uma base produtiva inovadora para o país.

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