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“Mantendo a relação com o cliente temos menos prejuízo no canal”

25 de Agosto de 2010 às 17:30:27 por João Nóbrega

O director-geral da Toshiba, João Amaral, quer replicar a organização e processos do negócio de portáteis, na abordagem ao mercado de televisões.

CW – Qual foi o principal factor de sucesso nas televisões?

JA – A sinergia de recursos com a área dos computadores permitiu obter crescimentos exponenciais nas televisões. Tornámo-nos um dos cinco maiores fabricantes no mercado. Mas este é muito complexo porque tem uma hegemonia da LG e da Samsung. Queremos ser apresentados como uma alternativa. No canal, há também um domínio muito forte: 70% da facturação será feito através de cinco ou seis marcas de retalho, e três delas representam 50% do negócio. Os retalhistas acabam por também querer trabalhar connosco porque somos uma alternativa – ficamos com margens mais baixas. Usamos o canal com uma estrutura muito pequena e, por isso, conseguimos condições muito agressivas. Depois estamos a dar negócio adicional aos distribuidores de TI: o que estão a perder nos PCs estão a recuperar com as televisões. E ainda estamos a ponderar lançar outras linhas como, por exemplo, a nossa oferta de lâmpadas LED.

CW – Isso não estava já decidido?

– Não. Os produtos já foram lançados à escala mundial e foram muito falados porque as lâmpadas LED consomem 10% do gasto das lâmpadas económicas. Esse negócio está a ser estruturado e muito possivelmente no final de 2010 e início de 2011 haverá novidades para o mercado português. A intenção é criar mais negócio através da incorporação de mais produtos.

Tanto a televisão como os portáteis têm a ver com o digital. Consideramos que não há crise no nosso sector, vamos vender sempre mais. Os produtos são cada vez mais uma comodidade mas por outro lado, será a indústria de TI a revolucionar o novo modelo económico.

CW – Que impacto teve a televisão na estrutura do vosso negócio?

JA – Nós vemos este negócio baseado na relação com o cliente no pós-venda. Como nos portáteis, queremos que os clientes nos contactem directamente nas avarias. Uma máquina no retalho para chegar aqui demora 15 dias e é reparada em dois ou três dias, e depois volta ao retalho, demorando mais 15 e nisto perde-se um mês. No retalho, a máquina que não é reparada em tempo útil exige a devolução do dinheiro e o dispositivo passa a ser um produto em segunda mão, com prejuízo para o fabricante. Queremos resolver em dois ou três dias úteis o problema ao cliente. Mantendo a relação com o cliente temos menos prejuízo no canal. Fizemos também isso para as televisões. Qualquer negócio novo que surja não exige mais recursos.

CW – No mercado dos televisores, qual é o segmento prioritário?
JA
– Vender os TFT. O LED está a fazer com que haja clientes interessados em ecrãs abaixo das 32”, de 22” e 19”, e até no equipamento acima, das 50”ou 55”. E também está a baixar de preço, o que significa que onde vamos fazer negócio é na venda dos televisores de 32” como segundo equipamento para casa. Haverá também clientes com CRT com vontade de comprar já aparelhos LED.

CW – Qual vai ser o dispositivo de interface com a televisão: um tablet PC, um teclado normal?
JA –
Pode ser a voz. Há-de haver um sistema operativo semelhante ao telemóvel e PC. A interface será o mais humano possível e tem de ser criado por quem cria os sistemas operativos: Microsoft, Google…

CW – Essa será uma área de inovação onde a Toshiba se quer empenhar?
JA
– Sim mas o problema para a Toshiba é que é um fabricante de dispositivos, e estamos a falar de um sistema complexo. Envolve o dispositivo, a infra-estrutura de distribuição e os criadores de conteúdos. E tem de haver uma normalização na infra-estrutura, como nos telemóveis. E, claro, na venda dos conteúdos é necessário ponderar toda a taxação dos serviços.

CW – Essa normalização está próxima?
JA
– Estará a um ou dois anos, três no máximo, porque enfrentamos este cenário: temos dificuldade em aceder a informação paga e facilidade em aceder a informação pirateada imediatamente. Tem de haver um preço para se ver um conteúdo imediatamente de forma legal. Os sistemas gratuitos não têm futuro e os pagos têm de ser simples.
Há muitas partes interessadas na infra-estrutura, mas a questão é saber como os países vão agir e como vão acontecer as transacções transfronteiras. Em Portugal, vão ter de existir infra-estruturas de distribuição e facturação de conteúdos nacionais e internacionais.

CW – E qual é a situação em Portugal?
JA –
Que saiba, estamos no zero. Em Espanha várias produtoras e editoras juntaram-se e estão a criar uma infra-estrutura.

CW – Essa infra-estrutura consiste em quê, exactamente?
JA
– Não estamos a falar de hardware mas sim da monitorização dos conteúdos distribuídos, de ferramentas para fazer a cobrança correcta e definir o modelo de negócio e pagamento.
Duvido que os governos permitam que organizações como a Google e a Apple fiquem com os lucros todos do negócio realizados nesses países. Estas empresas vão ter de oferecer aos países as infra-estruturas para serem feitas as cobranças e a taxação devida.

CW – Mas onde quer estar a Toshiba neste processo?
JA
– Temos de aguardar o nosso momento e queremos ter padrões para nos adaptarmos a eles.

Parte 1: “Smartbook pode sacudir o mercado e obrigar Microsoft a mexer nos preços”

Parte 3: “A Toshiba é uma empresa tão portuguesa como a JP Sá Couto”

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