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“A Toshiba é uma empresa tão portuguesa como a JP Sá Couto”

25 de Agosto de 2010 às 17:30:59 por João Nóbrega

Na visão de João Amaral, faltou visão estratégica ao governo no projecto Magalhães. Tal como quando o presidente da organização visitou Portugal.

CW – A Toshiba não concorreu ao contrato de fornecimento de computadores para o Programa e-escolinhas, porquê?
JA
– Com as condições que nos pediram, considerando máquinas a 200 euros, ao fornecer 250 mil máquinas iríamos ter um prejuízo próximo dos sete milhões de euros. O interesse da JP Sá Couto é diferente. Está a dar suporte a 450 mil máquinas e é mais barato para a empresa estabelecer um novo negócio de 250 mil máquinas que vai mais tarde gerar negócio adicional. Para a Toshiba, sempre foi um negócio adicional e hoje representa apenas cerca de 10% da facturação.

CW – Considerando o vosso investimento em investigação tecnológica, não é possível instalar um núcleo de investigação e desenvolvimento da Toshiba em Portugal, como acontece no Brasil?
JA
– Quando o presidente da Toshiba veio cá, desenvolvi alguns esforços para colocá-lo em contacto com instituições portuguesas ao mais alto nível. Tinha esperança de que o Governo convencesse os japoneses a investirem em Portugal. Mas a visita não foi suficientemente considerada e perdeu-se uma oportunidade. Por falta de humildade, para perguntar o que seria necessário para suportar um projecto.

CW – O que podia ter potencial?
JA –
O que era mais importante era conversar para tentar definir o que interessava a Portugal desenvolver e em que é que a Toshiba pode ajudar, tendo em conta o futuro – como fez o Brasil. Faltou visão. A possibilidade de criar uma ponte para África e para a América do Sul, etc., isso tem de ser tudo vendido. E se não houver interlocutores à altura, esse processo não é possível.

CW – Para Portugal, o fabrico ou concepção de chips seria um bom negócio?
JA –
Depende do que se quiser fazer. Os chips têm desenvolvimento contínuo no Japão e nos Estados Unidos. A China é apenas um assemblador. E as interfaces usadas nos telemóveis chineses são desenhados no norte da Europa.

CW – No caso do Brasil, qual é a estratégia?
JA
– O Brasil não quer ser uma China. Pretende ganhar conhecimento e ser a plataforma para a América do Sul. No caso de Portugal, pode haver boas oportunidades para empresas portuguesas no desenvolvimento da tal infra-estrutura de distribuição de conteúdos. Mas precisam de andar um passo à frente do mercado.

CW – A Toshiba quer envolver-se nalgum projecto nessa área?
JA –
Isso já não cabe à Toshiba. Têm de ser as empresas a criar a infra-estrutura e a vendê-la, têm de se criar relações e massa crítica, para poder apresentar à Toshiba um sistema operativo e uma interface, e dizer-lhe “queremos colocar na vossa televisão”.

CW – É preciso envolver o Governo para haver negócio?
JA
– O Governo serve apenas para cativar interesse. O resto tem de funcionar por si só. Tem de haver investimento privado e parceiros interessados.
Eu não percebo porque um ministro sugere que prefere apoiar a JP Sá Couto em vez da Toshiba. A Toshiba é uma empresa tão portuguesa como é a JP Sá Couto.
Nós mandamos vir os produtos da Ásia e trabalhamos no mercado com empresas portuguesas. Pago muito mais impostos e tenho maior rendibilidade e maior facturação.

CW – Mas é preciso apoiar a indústria nacional….
JA
– Como é que a JP Sá Couto é indústria nacional? É tudo fabricado na Ásia e montado cá. Nós mandamos vir já montado e depois o negócio todo funciona com empresas locais que pagam os seus impostos. Se os componentes são comprados no mesmo sítio, não tem lógica proteger ninguém.

CW – Contudo, houve valor acrescentado ao produto cá em Portugal e foram feitas alterações ao modelo inicial…
JA –
Não sei, não somos nós que desenvolvemos. Mas o que é que eles inventaram? Eles tiveram uma ajuda muito grande da Intel, que tinha um problema: desenvolveu o Classmate e visitou os fabricantes a propô-lo.Estes aperceberam-se do seguinte: a Intel queria entregar aos fabricantes o produto e estes só vendiam, não desenvolviam nada.  A Toshiba recusou porque procura criar valor acrescentado e da Intel só precisa dos processadores. E esta foi ter com os assembladores e propôs-lhes a montagem e a venda das máquinas. Mas a estratégia teve pouco sucesso.
No caso do Magalhães, houve a conjugação de interesses promocionais das três partes e o governo voltou a ter falta de visão: a ideia era montar em Portugal para vender no estrangeiro. Contudo, a Intel não vai conseguir vender no estrangeiro através da JP Sá Couto. A única coisa que se vai conseguir exportar são serviços de conhecimento para criar fábricas.

Parte 1: “Smartbook pode sacudir o mercado e obrigar Microsoft a mexer nos preços”

Parte 2: “Mantendo a relação com o cliente temos menos prejuízo no canal”

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Um comentário a ““A Toshiba é uma empresa tão portuguesa como a JP Sá Couto””

  1. Ora aqui estão algumas palavras bem ditas… E sem rodeios, a verdade tem que ser dita dessa forma…

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