O autor, Bernard Golden é CEO da consultora HyperStratus, especializada em virtualização, cloud computing e questões associadas. É autor de “Virtualization for Dummies”, o livro de mais sucesso sobre virtualização.
O mundo tecnológico está a tuítar (literalmente!) sobre um artigo na edição deste mês da revista Wired que anuncia “A Web morreu. Longa vida à Internet“. O artigo recita uma litania de problemas que estão a chocar a Web: o apogeu das aplicações que está a substituir o uso do browser; o crescimento de sítios Web de super-agregação como o Facebook que são plataformas fechadas; a destruição da publicidade tradicional e sua substituição pelo semi-benevolente monstro das pesquisas Google; e até o afastamento do HTML e o uso das aplicações pelo porto 80.
Em resumo, a Wired publicou uma premiada sobre o fim da Web aberta estar a ser rapidamente suplantada pelos vorazes e desejosos monopolistas que querem dominar o mundo ligado e reduzir-nos a todos a nada mais do que consumidores pré-destinados de “conteúdo” servido pelas monolíticas supermarcas. Tem de se ter atenção mas, depois da tristeza sobre as terríveis coisas que estão a contecer na Web, a Wired conclui que a Internet é jovem e ainda em desenvolvimento, pelo que vêm aí novas coisas.
Não recuo perante ninguém na admiração (ou, realmente, prazer) pela Wired. Sempre a achei estimulante e interessante. No entanto, é preciso admitir que no seu esforço pela profundidade, por vezes aumenta o efeito e exagera a conclusão (na verdade, a própria revista admite isto quando nota que previu a morte do browser há mais de uma década). Por exemplo, a Wired chegou a uma divertida conclusão errada há dois anos quando declarou “O fim da teoria: o dilúvio dos dados tornou obsoleto o método científico“.
Relativamente à mensagem do artigo, chego a uma conclusão diametralmente oposta à da Wired, que gasta talvez 90% do artigo a lamentar o aumento das más forças e atira 10% no final do tipo “mas ainda estamos no ciclo inicial da Internet, pelo que algumas coisas boas podem acontecer”. Olho para o mesmo fenómeno e vejo os enormes problemas que isso coloca em talvez 10% da realidade da Internet e certamente nada com que nos devamos preocupar – de facto, dificilmente se vão manter como problemas no futuro próximo.
Por exemplo, veja-se o afastamento de normas da Web como o HTML e o porto 80. Porque alguém deve estar preocupado sobre que porto é usado para a comunicação com a Internet ultrapassa-me mas, de facto, o porto 80 está a aumentar de importância. Na minha experiência, pedaços inteiros de aplicações que seriam melhor servidas com os seus próprios portos e protocolos usam este porque é o único que de certeza se pode esperar estar aberto nos firewalls das empresas. Podemos largar uma lágrima pelo pobre porto 80, dada a sobrecarga e excesso de trabalho para deixar aplicações fazer coisas que nunca foram previstas fazer quando o protocolo HTML original foi concebido – mas não podemos concluir que está obsoleto e abandonado.
Ou o aumento dos monólitos. O que surpreende é quão frágil estas entidades inexpugnáveis demonstram ser no mundo da Internet. A Yahoo! deteve o espaço do portal até ser ultrapassada pela Google. O MySpace era o querido de toda a gente até chegar o Facebook. Nem sequer falemos sobre o destino da pouco lamentada AOL.
O que surpreende não é que os efeitos de rede gerem líderes dominantes; o que surpreende é quão rápida é a movimentação dos utilizadores para algo novo, deixando o antes actor dominante parecer moda da última estação. Uma observação mais interessante será como a natureza da Internet torna estes monólitos tão frágeis. Espero que o Facebook seja ultrapassado por algo porque, no mundo da Internet, ter de colocar as relações de alguém num único sítio Web é inconveniente e limitado.
Acho que a Wired, nas suas deprimentes observações sobre o Facebook e o YouTube, falha a imagem mais vasta, que é a penetração da Internet em cada elemento da vida diária e o processo de mudança de como trabalhamos baseada na alteração para a interacção digital (sobre o qual escrevi no blogue da HyperStratus). Esta é a grande história. E geralmente falhamos em entender as suas implicações.
A saber: o CEO da Google, Eric Schmidt, notou recentemente que o mundo está a criar – a cada dois dias! – tanta informação como a que criou desde o início da civilização até 2003. Ele atribui isso ao conteúdo gerado pelos utilizadores – vídeos e coisas assim.
No entanto, esquece outro mecanismo de geração de informação – dispositivos. As pessoas notam que os telemóveis são agora computadores completos, capazes de enviar e receber dados. Até se sabe a estatística de que, enquanto agora temos 1000 milhões de computadores em todo o mundo, há (ou haverá em breve) 5000 milhões de telemóveis. Nesta base, uma empresa analista prevê que haverá 20 mil milhões de dispositivos informáticos na Internet em 2020. Impressionante, não é?
Excepto que o CTO da Cisco prevê que haverá um bilião de dispositivos ligados à Internet em 2013 – 50 vezes mais do que os números da analista e sete anos antes. 50 vezes! Não estou a tentar criticar a empresa, mais a observar que quase todos subestimam a trajectória de crescimento da Internet.
A mensagem aqui é que a Internet se está a tornar – aliás, é – a base do sistema de transporte por onde a nossa economia e sociedade opera. E a transição e crescimento estão a acontecer mais rápido que alguém realmente reconhece.
E penso que isto vai acelerar a transição para a cloud, o que torna imperativo que as pessoas nas tecnologias de informação se apercebam do crescimento e planeiem:
- Reconhecendo que provavelmente será necessário um fornecedor externo de armazenamento. Para todas menos as grandes empresas, tentar gerir a explosão de dados será impossível, tanto tecnicamente como financeiramente. Com a curva de aceleração de criação de dados, os problemas actuais vão piorar. Encontre um fornecedor externo com quem criar uma estratégia de dados integrados.
- Estimando um plano de largura de banda. Vai precisar de mais, muito mais. A par com a largura de banda, vai necessitar de examinar o uso de aceleração WAN e dispositivos Application Delivery Controller para optimizar o tráfego.
- Pensando sobre as necessidades de investimento se experienciar um crescimento de uma ou duas ordens de grandez nos próximos cinco anos. Padrões de investimento e estruturas de custos que sejam sustentáveis a um nível de investimento podem não acontecer quando se necessitam de 10 ou 100 vezes mais de capacidade.
- Pensando sobre automação – muito. Muitas organizações de TI operam hoje numa forma semi-automatizada (ou até manual). O dilúvio das aplicações e dos dados desacredita essa aproximação.
A Wired mexeu certamente num ninho de vespas com o seu provocativo artigo. E, por enquanto, obteve algumas boas reacções. Surpreendente, no entanto, é que falha em entender as verdadeiras implicações do fenómeno sobre o qual escreve: a explosão de aplicações e de serviços para o consumidor é enorme, na realidade, mas essa explosão é fraca em comparação com a tempestade que a rodeia.
Artigo adaptado da CIO.
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