Preocupações económicas ensombram ganhos nas TI

3 de Fevereiro de 2010 às 16:05:18 por Timoteo Figueiró

Os relatórios trimestrais apresentados na semana passada por dezenas de companhias tecnológicas e de telecomunicações, entre as quais se contam os pesos-pesados da indústria Microsoft, Apple e Nokia, foram globalmente positivos.

Mas a inconstância dos mercados de capitais dos Estados Unidos mostram que os investidores de TI ainda têm grandes preocupações acerca da estabilidade da economia.
No passado dia 8 de Janeiro, o índice Nasdaq atingiu o seu ponto mais alto desde Setembro de 2008, antes do colapso de Wall Street e da falência dos bancos. Mas apesar de muitas companhias tecnológicas terem atingido resultados no quarto trimestre acima do esperado, o valor das suas acções continua a cair nas bolsas.
O Nasdaq tem vindo a cair nas duas últimas semanas, altura em que somava 2318 pontos, o seu valor mais alto dos últimos 15 meses, tendo fechado a sessão de quinta-feira passado nos 2179 pontos. Até mesmo a Apple, que anunciou sólidos resultados na passada semana e lançou na mesma altura o muito aguardado iPad, viu as suas acções caírem na sessão de quinta-feira.
As dúvidas acerca dos planos do presidente Obama no sentido de limitar o espaço de manobra dos grandes bancos norte-americanos, o aumento do crédito mal-parado e as elevadas taxas de desemprego, além da dívida externa dos EUA, têm contribuído para reforçar as preocupações quanto à estabilidade da economia. Tendo reportado resultados no último trimestre acima do esperado, espera-se que as tecnológicas ajudem a tirar a economia americana da recessão, mas muitos players do mercado consideram que há ainda um longo caminho pela frente.
“Quando acontece uma crise financeira como esta, demora anos a atingir-se uma retoma completa”, afirmou Bill Gates numa entrevista ao programa “Good Morning America”, na passada segunda-feira. “Estamos a ter uma recuperação muito lenta e toda a gente está frustrada com o ritmo da retoma. Mas eu não creio que o governo possa fazer algo mais para acelerar o ritmo da recuperação”, disse o fundador da Microsoft.
Embora muitos analistas do mercado estejam a prever um aumento nos investimentos mundiais em TI este ano, ainda há muitas nuvens no horizonte.
Muito do aumento previsto na despesa em tecnologia prende-se apenas com as alterações nas taxas de câmbio estrangeiras. Os aumentos nos investimentos têm sido contabilizados em dólares, cujo valor está previsto descer este ano, inflacionando assim os resultados das vendas feitas fora dos Estados Unidos. Além disso, grande parte do aumento nos investimentos em TI deverá ser gerada pelo segmento do consumo, já que as incertezas acerca da estabilidade da economia ainda estão a impedir as empresas de planear um aumento nos seus investimentos.
Aliás, os orçamentos de TI deverão ter um crescimento quase nulo este ano, estando previsto que aumentem apenas 1,3 por cento face aos níveis de 2009, de acordo com um estudo do Gartner. Embora existam alguns sinais de retoma nas projecções para 2010, estes não serão, mesmo assim suficientes para compensar os cortes do ano passado, diz a consultora.
“O ano passado foi o mais desafiante para os CIOs, quer do sector privado quer do público, uma vez que todos eles foram obrigados a lidar com múltiplos cortes orçamentais, adiando os seus investimentos e tentando fazer mais com menos recursos”, afirma Mark McDonald, vice-presidente e responsável de investigação do serviço EXP do Gartner.
E embora muitas companhias de TIC tenham apresentado, como foi já referido, resultados superiores ao inicialmente previsto, os lucros de algumas delas resultaram sobretudo de estratégias de redução de custos e de eficiência operacional e não tanto de aumentos nas vendas.
Aliás, alguns dos pesos-pesados da indústria que reportaram resultados homólogos acima do esperado sofreram mesmo reduções nas suas vendas, nomeadamente algumas das grandes marcas de telemóveis. Um desses exemplos é a Motorola, que embora tenha reportado na quinta-feira passada um lucro de 142 milhões de dólares, viu as suas vendas trimestrais caírem para os 5,7 mil milhões de dólares, dos 7,1 mil milhões alcançados no período homólogo do ano anterior. A Nokia, que também anunciou os seus resultados no mesmo dia, diz que o seu lucro trimestral subiu 65 por cento face ao trimestre homólogo, para os 948 milhões de euros. No entanto, com o decréscimo do preço médio dos telemóveis, as suas receitas sofreram uma queda de cinco por cento, para os 12 mil milhões de euros.
Mas algumas companhias do mundo das TIC conseguiram, de facto, apresentar resultados verdadeiramente positivos na semana que passou. A Microsoft é uma delas, reportando um aumento no lucro líquido do quarto trimestre de 60 por cento, para os 6,7 mil milhões de dólares. As receitas da gigante do software cresceram também, desta feita 13 por cento, para os 19 mil milhões de dólares.
Também a Apple teve um trimestre forte, anunciando receitas e lucros acima dos alcançados em 2008. A companhia obteve um lucro líquido de 3,38 mil milhões de dólares, contra os 2,26 mil milhões do mesmo trimestre do ano anterior, tendo as receitas crescido dos 11,88 mil milhões de dólares para os 15,68 mil milhões.
No entanto, e apesar disto, as acções da Apple e da Microsoft fecharam em baixa a sessão da passada quinta-feira, com as da primeira a registarem uma queda de 8,59 dólares para os 199,29. Também os papéis da Microsoft fecharam a sessão nos 29,15 dólares, menos 0,51 dólares que na sessão anterior.
O Google, que por seu turno também anunciou fortes resultados trimestrais, fechou a sessão de quinta nos 534 dólares, contra os 626 dólares de há duas semanas atrás, altura em que atingiu o seu máximo dos últimos dois anos.
Ao que tudo indica, para que a confiança dos investidores aumente e acabe por se reflectir no valor das acções das tecnológicas, serão necessários sinais adicionais de retoma nas vendas dos fabricantes ao longo dos próximos meses.

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