Ano novo arranca com optimismo moderado

11 de Janeiro de 2010 às 19:00:42 por Timoteo Figueiró

O ano acabou de entrar e as perspectivas parecem mais animadoras. No entanto há alterações que vieram para ficar e as prioridades já não são as mesmas.

AA010879_7A recessão alterou de facto as prioridades das TI, encurtou a bitola usada para medir o sucesso dos investimentos e inclusivamente moldou a procura por certas tecnologias. Por exemplo, software-as-a-service e outras opções de cloud tornaram-se mais procurados.
“A depressão da economia obrigou as empresas a darem especial atenção à forma como organizam os seus recursos, como investem, e fê-los questionar se seria ou não boa ideia fazer grandes investimentos nos seus próprios departamentos de TI, e em centros de dados”, adianta Nicholas Carr, autor e analista da indústria.
Entretanto as equipas de TI estão a equacionar as mudanças radicais a serem efectuadas nas suas infra-estruturas e certamente vão precisar de grandes orçamentos para as realizar. Os recursos ainda são magros, e há poucos sinais de que a curto prazo as coisas voltem a ser o que eram.
“Estamos definitivamente mais optimistas, mas ainda estamos a tentar obter o máximo de resultados com o mínimo investimento”, afirma John Turner, director de networks e sistemas da Universidade de Brandeis, em Waltham, Massachussetts. “As expectativas são elevadas. As pessoas vêm que a economia está a recuperar e o acesso ao crédito é um pouco mais fácil este ano, mas as equipas ainda têm de ser pequenas”, sublinha.

Não se esperam milagres
A indústria tecnológica cresceu bastante bem em 2008 até que a crise financeira ter criado o pânico e levado as empresas a baixar dramaticamente os seus investimentos. Em 2008 nos EUA a compra no sector subiu quatro por cento, mas em 2009 decresceu nove por cento, segundo dados da Forrester Research.
“Uma das questões chave da recessão foi o aspecto financeiro”, refere Andrew Bartels, vice-presidente e principal analista da Forrester. “A crise financeira criou o pânico e as empresas retraíram o investimento com medo de não obterem crédito na banca”, afirma o analista.
Actualmente, as previsões indicam que a situação está a melhorar e, segundo o Gartner, espera-se um crescimento de 2,8 por cento nos EUA em 2010, para os 958 mil milhões de dólares.
A Forrester está mais optimista. A consultora prevê para 2010 um crescimento de 7,7 por cento, apoiando-se nos dados económicos do Departamento de Comércio americano, de acordo com as perspectivas para o crescimento do produto interno bruto (PIB), e prevê o aumento do crédito.
“Esse crescimento ainda não vai atingir os níveis de 2008, mas estamos no caminho da retoma que se vai consolidar a partir de 2011″, declara Bartels.
Dave Rudzinsky é um dos empresários que espera investir mais em 2010. Chefe do Departamento Informático da Hologic, uma empresa de equipamentos médicos em Bedford, Massachussets, que gerou receitas de 1,6 mil milhões de dólares, Rudzinsky lutou para manter o investimento nas TI em 2009, apesar das pressões em sentido contrário.
“Não abandonámos os nossos projectos por causa da economia”, diz Rudzinsky, acrescentando que “sabíamos que era preciso levá-los para a frente, para estarmos preparados para a próxima onda de crescimento. Estamos a investir no que consideramos indispensável para garantir as tecnologias e as plataformas para o futuro, para apoiarmos as outras áreas empresariais que se debatem com restrições orçamentais e que precisam de apresentar mais resultados com menos meios”.
Mas apesar de se esperar alguma retoma orçamental do sector, os executivos e os observadores não prevêem um aumento substancial das contratações em 2010, mesmo com a melhoria da economia. De 1043 industriais do sector das TI questionados numa sondagem levada a cabo pela CDW, 80 por cento afirmam que pretendem manter os gastos com pessoal aos níveis actuais.
A maioria das empresas planeia manter o quadro de pessoal fixo porque não fez cortes drásticos durante a recessão, diz Lily Mok, uma das vice-presidentes do Gartner.
“A maior parte das empresas do sector foi cautelosa com os cortes de pessoal”, acrescenta Mok, dizendo que “as empresas estavam a preparar-se para a retoma e penso que vão seguir as mesmas políticas não contratando em demasia. Não acredito que voltem a ter as dimensões que tiveram em 2000″.
Os gestores deste sector têm relutância em efectuar cortes de pessoal porque estas são as pessoas que verdadeiramente sabem do negócio. “É preferível fazer cortes nos consultores, mesmo no capital a reduzir o pessoal” diz Bartels. “Da mesma forma, quando a economia começa a melhorar, enceta-se o caminho inverso e não se aumenta os quadros para além das necessidades. Só se contrata mais quando a economia crescer de forma sustentada.”
Mas isto não quer dizer que todos estejam a optar pelas melhores soluções. De facto, os líderes do sector precisam de prestar mais atenção às contratações laborais. O Gartner demonstra que apenas 30 a 40 por cento das companhias têm um verdadeiro plano de acção a este nível, o que implica ferramentas para identificar a procura e a oferta da força de trabalho, bem como implementar alterações no recrutamento e formação para colmatar falhas ao nível das competências. Para além disso, a maioria das companhias só avalia as suas necessidades em termos laborais a um prazo compreendido entre os 12 e os 18 meses. É um período insuficiente, especialmente para desempenhos a este nível que requerem profundos conhecimentos”, acrescenta a analista.
“Algumas destas competências levam muito tempo a desenvolver, por isso é preciso repensar estes prazos. Se ainda não começou, chegou o momento de o fazer”, conclui Mok.

Análise mais cuidada – ROI mais rápido
Com o defluxo de dinheiro em 2009, os orçamentos foram sofrendo reduções consecutivas. Na Universidade de Brandeis, a maiori iniciativa no radar de Turner – um projecto de 802.11n -, os orçamentos só passaram após cortes vigorosos. “Planeámos uma reestruturação de grande escala, e um dos maiores investimentos vai ser realizado nas tecnologias de ponta”, diz, acrescentando que “em algumas áreas vamos eliminar radicalmente o acesso por fios, e noutras pensamos reduzir este acesso em 30 por cento”.
Pensarmos em termos de custos globais é crucial neste momento, afirma Turner. “Tudo o que aparece em cima da mesa é cuidadosamente analisado mesmo antes de passar ao Orçamento. Antigamente não era tão importante como é hoje em dia. Levamos tudo em consideração, desde os custos dos interruptores, gastos energéticos, custos de manutenção e despesas associadas”, sublinha.
Para além disso, Turner e os seus pares estão a trabalhar com um comité de aconselhamento composto por líderes universitários seniores para revisão do projecto. “É óptimo porque nos proporciona um planeamento mais integrado. Ao nível das Universidades isto é raro”, admite.
Este comité também ajudou a identificar áreas onde as TI podem ajudar a Universidade não só a fornecer melhor tecnologia, mas também a poupar dinheiro e a optimizar os seus objectivos”.
Outro sinal dos tempos: as empresas esperam obter menos lucros. “Há muito tempo atrás podíamos justificar os projectos de TI com um retorno de Investimento a 18 meses”, diz Andi Mann, vice- presidente de investigação da Enterprise Management Associates. Segundo este responsável, esse prazo baixou para os 12 meses há dois anos atrás e agora é necessário justificar o investimento num prazo de 6 meses numa base negocial sólida”.

Novas Prioridades
O consumo não parou em 2009, mas a recessão alterou as prioridades. Iniciativas que antes não tinham espaço nas empresas, estão agora a ganhar reconhecimento – redução de custos operativos, aumento da produtividade dos utilizadores e aumento da eficácia dos processos.
Ferramentas como a videoconferência e as comunicações unificadas tornaram-se populares, na medida em que ajudam as empresas a ver o trabalho realizado. As ferramentas de BI e a análise de projectos também se estão a manter bem. “As empresas precisam de ter uma melhor compreensão dos seus gastos, da dimensão do negócio, em resumo, do que se passa em termos globais”, afirma Bartels, para quem “fez todo o sentido investir em BI porque sabiamos que iria gerar um bom retorno”.
O desejo de não dispender dinheiro teve uma clara influência particularmente no mercado de software. Os lucros de software licenciado caíram, enquanto os lucros das aplicações no modelo SaaS (Software As a Service) continuam a crescer. O Gartner estima que estas receitas possam atingir os 7500 milhões de dólares em 2009 – um aumento de aproximadamente 18 por cento em relação a 2008.
Embora o interesse nas aplicações de modelo SaaS já viesse a crescer mesmo antes da recessão, a sua adopção foi acelerada em 2009 porque os responsáveis do sector procuraram formas de evitar o investimento de capital e flexibilizar as TI.
“O SaaS beneficiou com a depressão da economia”, afirma Chuck Schaeffer, CEO do fabricante de CRM e ERP, Aplicor, segundo o qual “a procura pelo SaaS continua a crescer e o número de clientes interessados não pára de aumentar.”
Os ciclos de vendas aumentaram devido à necessidade de maior justificação do retorno do investimento, continua Schaeffe, e em geral as empresas optam pelo SaaS pelas mesmas razões: transparência nos gastos, redução do tempo de implementação, redução de pessoal, e menor risco de execução relativamente às soluções tradicionais.
“Actualmente, os departamentos de TI sofrem desafios, mas a maioria espera que a economia conheça melhores dias”, diz Schaeffer. “Quando isso acontecer, o SaaS terá a capacidade de responder a uma maior procura. Os recursos de computação podem ser provisionados e escalados de forma dinâmica e as empresas não terão de obter, implementar, gerir e actualizar servidores e hardware no caso de a empresa crescer”, sustenta.
A consolidação de servidores e os projectos de virtualização também foram uma prioridade em 2009, já que estão claramente associados a redução de custos. Através da eliminação e da consolidação de hardware subaproveitado ou ineficaz, as companhias puderam fazer reduções do número de servidores activos na ordem dos cinco a 20 porcento, de acordo com o Gartner.
Ao mesmo tempo, a virtualização permitiu às empresas eliminar na totalidade algumas farms de servidores, cortando drasticamente os custos e aumentando os níveis de eficácia em 10 a 30 por cento, para um patamar de 70 a 90 por cento. Com a eliminação de um simples servidor x86 de um centro de dados pode poupar-se mais de 400 dólares por ano só em gastos energéticos, afirma o Gartner.
Além disso, para optimizar e tornar uma infra-estrutura de TI mais económica, os servidores virtuais permitem criar condições para que outras iniciativas estratégicas ao nível das TI sejam bem sucedidas. “Constato uma tendência no sentido de a virtualização poder ser o edifício central da metodologia cloud”, diz Chris Poelker, vice-presidente da empresa de soluções FalconStor Software.

Nuvens no Horizonte
Como o congelamento dos investimentos de capital começa a abrandar, as empresas vão avançar com os projectos que foram adiados em 2009, garantem alguns observadores do sector, que prevêem mesmo boas receitas para alguns tipos de hardware.
Algumas compras de PCs que tinham sido adiadas deverão ser uma prioridade sobretudo desde que o Windows 7 já está disponível. As soluções de armazenamento também vão conhecer a recuperação, diz Bartels. “Podemos até deixar de crescer por uns tempos, mas com o aumento inexorável da quantidade de dados que precisam ser armazenados, mais cedo ou mais tarde temos que comprar mais equipamentos”, afirma Bartels.
De uma maneira geral, as mentalidades estão a mudar a sua focalização, da redução de custos para as iniciativas que podem ajudar as empresas a crescer. “Em 2009, havia sem dúvida uma onda de corte e de consolidação no sentido de emagrecer os custos, mas ao mesmo tempo, muitas empresas não quiseram perder o barco e preferiram preparar-se para melhores dias”, diz Phil Hochmuth, analista sénior do Yankee Group.
As empresas querem que as suas aplicações e infra-estruturas sejam mais flexíveis, que os seus funcionários possam trabalhar em estreita colaboração e ter acesso às ferramentas e dados de que necessitam, estejam estes localizados onde estiverem. Estes pontos tornaram-se prioritários durante a recessão, diz-nos Hochmuth.
“As companhias afinaram os seus conceitos sobre a sua própria estruturação e sobre os seus objectivos e competências”, diz este especialista. Projectos como a virtualização de desktops terão a luz verde, bem como programas de acesso remoto para os tele-operadores. “Estas são as empresas que queriam realizar estes projectos no ano passado, mas foram forçados a adiar”, acrescenta Hochmuth.
O aumento da virtualização no centro de dados será uma realidade, afirma por seu turno Poelker. “Quando se combina virtualização de armazenamento com a virtualização de servidores, podemos criar uma abstracção entre ambos e a mobilidade dos dados pode ocorrer sem referência a uma localização geográfica”, sustenta Poelker.
Embora o entusiasmo em torno do cloud computing continue elevadíssimo, existem alguns sinais de que a atitude em torno desta temática mudou drasticamente no ano passado.
O SaaS, um dos muitos serviços baseados na “nuvem”, vai conhecer uma considerável aceleração em 2010, mesmo nas maiores empresas, adianta Carr. Este especialista prevê que o uso das Infra-Estruturas-como- Serviço (outra variante do cloud computing através do qual o cliente utiliza o equipamento do fornecedor de serviços) e a Plataforma-como- Serviço também cresçam, embora a um ritmo mais lento. Este tipo de serviços tendem a incrementar, mais do substituir, os recursos das próprias empresas.
“O que me surpreende é a rapidez com que as empresas aderiram à ideia de cloud computing, mesmo que não tenham investido imediatamente no sistema”, afirma Carr, segundo o qual “ainda há um ano atrás, seguramente há dois anos, nem sequer era considerada como uma opção séria pela maior parte das empresas. Hoje em dia encontra-se definitivamente nas agendas”.
Rudzinsky da Hologic está pronto. As suas equipas investiram imenso tempo e esforço em projectos de baixo custo, como a centralização das infra-estruturas de TI, racionalização das aplicações empresariais e consolidação dos fabricantes de TI. “Este tipo de acções é realmente importante para manter a situação sob controlo”, afirma. “O próximo passo vai ser a nuvem”, garante.
Em 2010, esta companhia pretende explorar mais oportunidades de outsourcing e de serviços geridos, tendo sempre presente “que se deve conservar o essencial e livrarmo-nos do resto”. Por exemplo, talvez seja altura de deslocar aplicações como ERP e CRM para um fornecedor externo.
“Hoje em dia ainda hospedamos essas aplicações internamente, mas esperamos poder retirá-las do nosso centro de dados para outro centro qualquer. Queremos ter esta capacidade on demand. Quero poder dizer, ‘Oiçam lá, brevemente vamos ter uma enorme quantidade de trabalho, preciso que me garantam um espaço com maior capacidade de processamento, memória, e disco,’” diz Rudzinsky. Desta forma, adianta o responsável, “podemos livrar-nos de uma grande quantidade de tarefas com que lidamos actualmente e vai permitir que nos concentremos nas tarefas que trazem mais-valias à empresa”.
Esta parece ser a nova lei: uma utilização mais racional e cuidada dos recursos existentes.
Sem dúvida, os orçamentos são curtos e as equipas são magras. Mas para suportar uma depressão económica, as TI são levadas a abraçar projectos que representem grandes mudanças na forma como estes serviços são entregues. Poupança e inovação não têm necessariamente de se excluir entre si.

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