A tecnologia de super-computação poderá, na opinião de Al Gore, ajudar a espécie humana a inverter as mudanças climáticas, quer através da expansão do uso de energias renováveis, quer pela criação de modelos que ajudem as pessoas a compreender a gravidade do aquecimento global.
Falando na passada quinta-feira na conferência SC09 Supercomputing em Portland, nos Estados Unidos, o antigo vice-presidente e prémio Nobel, disse aos investigadores presentes que a sua experiência e conhecimentos podem ajudar a convencer o público e a esfera política de que é necessário passar à acção se quisermos reduzir as emissões de carbono.
“A super-computação deu-nos a mais poderosa ferramenta da história da civilização. Tornou-se na terceira forma básica de criação de conhecimento, depois do raciocínio indutivo e do raciocínio dedutivo”, afirmou Al Gore, acrescentando que “a ciência computacional, que de certa forma é uma mistura das outras duas, permite-nos alargar de forma extensiva a nossa capacidade de compreender fenómenos e realidades complexas, bem como investigar novas realidades complexas que nunca seriam possíveis de compreender sem as capacidades que a super-computação nos proporciona”.
Na sua opinião, e devido à forma como os humanos evoluíram, todos estamos condicionados a reagir apenas a ameaças imediatas, raramente manifestando uma reacção visceral a desafios como o aquecimento global, em que a causa e efeito estão separados por muitos anos. “Sondagens recentes mostram que as pessoas estão preocupadas com o aquecimento global, mas não o consideram um problema tão prioritário como outras ameaças”, sublinhou o prémio Nobel.
Modelação por super computação
A modelação climática auxiliada pela super-computação pode, contudo, “tornar visível aos humanos todos os fenómenos, mesmo que demasiado grandes ou demasiado pequenos para serem perceptíveis até agora” e, assim, estimular o tipo de reacção visceral que conduz normalmente a mudanças políticas, disse Al Gore.
Segundo o antigo vice-presidente dos EUA, “isto terá profundas implicações na forma como abordamos a interface entre esta ferramenta incrivelmente poderosa e as decisões políticas que têm que ser tomadas com base na ciência computacional”.
“Um dos desafios que ainda enfrentamos é a forma como os seres humanos, de forma individual, e os sistemas políticos e democráticos, de forma colectiva, se relacionam com a incrivelmente poderosa ferramenta da super-computação”, defende Al Gore. Do seu ponto de vista, a super-computação irá também representar um papel fundamental na criação de sistemas energéticos que recorrem a fontes de energia renováveis. As energias eólica, solar e geotermal podem substituir o petróleo, diz Al Gore, mas existem muitos desafios pela frente. A própria rede energética é obsoleta e responsável por milhões de dólares em prejuízos por ano devido a falhas no fornecimento.
Uma nova “super rede” seria necessária para chegar a regiões remotas ideais para a captação de energia solar e eólica, e sua distribuição posterior junto das áreas urbanas. “É imperativo termos uma rede energética que chegue a estas zonas e, para tal, é preciso dar-lhe a inteligência e capacidade de transmissão, distribuição e armazenamento necessários”, sublinha.
Na sua opinião, “as áreas com mais vento nem sequer estão a ser utilizadas porque a rede existente não chega lá. Integrar estas fontes energéticas intermitentes numa nova super rede é uma missão para a super-computação, e muitos de vós terão seguramente feito já alguns avanços nesse sentido”.
A presença de Al Gore na conferência SC09 não foi, contudo, pacífica, tendo sido recebido com protestos e mesmo algum vandalismo. Além disso, os jornalistas não foram autorizados a assistir ao discurso de Al Gore ao vivo, tendo-lhes sido apenas permitido ver a sua intervenção através de ecrãs colocados na zona de imprensa.
Al Gore falou sobre super-computação durante uma hora e 20 minutos, recordando à audiência que esteve também presente na primeira conferência realizada sobre este tema em 1988 e que esteve para marcar uma segunda presença na edição de 1997, mas nessa altura foi chamado a assumir as funções de vice-presidente. “Estou muito grato por terem demorado apenas 12 anos a convidar-me de novo”, brincou.
Grande parte do seu discurso parece ter sido feito à medida de um audiência generalista, mas a verdade é que dedicou muito tempo a falar de super-computação, mesmo admitindo que ser de todas as pessoas na sala “a que menos sabe sobre o assunto”. “Uma das leis sobre as quais eu sinto maior orgulho foi a que ditou a criação de centros de super-computação e da super-auto-estrada da informação, bem como da rede nacional de investigação e educação”, lembra Al Gore, considerando que os super-computadores vieram, de uma forma muito real, estimular a evolução da Internet, porque a tarefa de ligar entre si as grandes máquinas que tornaram possível às equipas trabalharem em conjunto sem estarem fisicamente presentes no mesmo edifício foi o que realmente permitiu chegar às ligações de banda larga de alta velocidade dos dias de hoje. “O que a vossa comunidade fez há décadas atrás foi permitir a transformação revolucionária da infra-estrutura de informação do mundo”, disse ele à audiência.
Ciência climática comparada a Lei de Moore
Al Gore comparou a ciência climática à Lei de Moore, segundo a qual o número de transístores que pode ser colocado num circuito duplica a cada dois anos.
Actualmente, existe cerca de mil milhões de transístores para cada homem, mulher e criança do planeta, disse Gore, referindo no entanto que a lei de Moore não é tanto uma lei da natureza, mas uma profecia tornada realidade graças aos muitos milhões de dólares investidos continuamente na investigação na área dos chips. Assim, na sua opinião, se fossem investidos também os fundos suficientes na investigação na área dos problemas climáticos, a mesma lei poderia ser aplicada à energia foto voltaica e outras formas de energia renovável.
“A Lei de Moore não é uma lei da física, como todos sabemos. É uma lei de expectativas cumpridas. Se tomarmos a decisão de mudarmos a forma como a nossa civilização tem acesso à energia, o fenómeno que aconteceu aos chips, em que o rápido desenvolvimento da tecnologia foi acompanhado de uma acentuada descida nos preços, acontecerá também a formas de energia como a foto voltaica, por exemplo”, defende Al Gore.
Trata-se na sua óptica de uma decisão simples de tomar, embora complexa de executar. “Neste momento, estamos totalmente concentrados nos combustíveis baseados em carbono, altamente poluidores, caros, vulneráveis e inseguros, e temos agora a oportunidade de fazer um investimento geracional que permita transformar o nosso sistema energético, baseando-o por fim em novas fontes de combustível amigo do ambiente e gratuito para todos”, conclui Al Gore.
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