“Software” para evitar desvios de custos de construção

16 de Julho de 2009 às 11:09:03 por João Nóbrega

Matos e Silva – Engº Civil, Especialista em Geotecnia, Estruturas e Direcção e Gestão na Construção (O.E.)
 

 

É frequente aparecerem, na comunicação social, referências a obras públicas com desvios significativos em relação à previsão inicial do seu custo. A título de exemplo podemos referir os casos do Centro Cultural de Belém, em Lisboa e o da Casa da Música, no Porto.
Os desvios referidos podem ocorrer quer entre a estimativa inicial do custo da obra e o valor da respectiva adjudicação, quer entre este valor e o custo final da empreitada.
Na primeira hipótese a explicação para o ocorrido resulta da estimativa inicial do custo da obra ter sido elaborada de forma pouco correcta, muitas vezes apenas com base num preço médio por metro quadrado de construção. Na segunda hipótese os desvios podem resultar de alguns dos seguintes factores:
a) Da reclamação de erros e omissões do projecto por parte do empreiteiro;
b) De alterações ao projecto promovidas pelo Dono da Obra;
c) De factores exógenos à empreitada, como, por exemplo, embargos judiciais, que podem interromper o normal decurso da empreitada, com os consequentes sobrecustos.
A situação referida na alínea a) pode tender a desaparecer ou a atenuar-se na sequência das actuais disposições do Código dos Contratos Públicos, relativas a erros e omissões de projecto. As situações relativas às alíneas b) e c) são casuísticas e, consequentemente, não são fáceis de eliminar.
Voltando à primeira hipótese, existem, actualmente, ferramentas que permitem diminuir, significativamente, os desvios provocados por deficientes estimativas iniciais de custo dos empreendimentos.
No nosso contacto com o "software" da Cype divulgado pela Top-Informática, tivémos possibilidade de constatar que existe o seguinte "software" disponível:
– para obter preços actualizados dos vários elementos da construção, com base num banco de dados de preços;
– pré-dimensionadores que permitem, com base num estudo prévio de arquitectura que defina a volumetria dum edifício, a sua tipologia de compartimentação e o seu mapa de acabamentos, proceder a um pré-dimensionamento da sua estrutura e de todas as suas infraestruturas técnicas, de modo a obter-se uma estimativa orçamental detalhada pelas várias actividades;
– para estimar os custos de conservação dum edifício ao longo dum período de dez anos;
– geradores de cadernos de encargos que podem complementar a estimativa orçamental apresentada com as especificações técnicas de todos os elementos integrantes do edifício.
A base de dados de preços, que é periodicamente actualizada, permite a qualquer técnico ter uma informação correcta dos vários preços de mercado, o que proporcionará, por exemplo, a comparação entre diferentes materiais a utilizar.
Os pré-dimensionadores fazem, nomeadamente, um estudo minucioso sobre os custos previsíveis para o custo da estrutura dum edifício, com base na localização da construção (importante para definir a acção sísmica a considerar), na definição adequada dos vãos de cálculo de lajes e vigas, numa previsão do número de pilares a implantar, da informação do tipo de solo de fundação, etc.
No que se refere às infraestruturas técnicas, o utilizador pode definir os materiais que pretende utilizar no que se refere às canalizações de águas e esgoto, às instalações de gás, de eléctricidade, de telefones, etc., e os pré-dimensionadores calcularão todas essas infraestruturas com base na regulamentação em vigor e na experiência corrente em função da tipologia do edifício. O "software" poderá apresentar esquemas desenhados dos traçados de tubagem considerados, válvulas de seccionamento, etc.
A informação relativa aos custos de conservação ao longo dum período de dez anos é baseada na experiência de situações análogas em função dos materiais utilizados, da agressividade climática, etc.
Os geradores de cadernos de encargos permitem documentar toda a orçamentação efectuada, explicitando as especificações relativas aos diversos materiais a utilizar e o modo de executar todos os trabalhos previstos. É uma excelente ferramenta pois é apresentada em fichas separadas que podem ser, fácilmente, acrescentadas ou retiradas, sem que a noção de conjunto se perca.
Com base no "software" referido é possível, efectivamente, estimar, com apreciável rigor, aquilo que vão ser os futuros custos de uma construção, permitindo aos Donos de Obra conceber uma engenharia financeira o mais realista possível. Alguns cursos de engenharia já usam este "software" nas cadeiras relacionadas com a gestão da construção.
Por outro lado permite aos projectistas aparecerem, juntos dos seus clientes Donos de Obra, com um maior grau de credibilidade no que se refere às estimativas de custo.
Finalmente este "software", até agora por nós apresentado como importante apenas para as fases preliminares dum projecto, poderá também ser útil para a obtenção duma adequada estimativa orçamental a apresentar com a fase de projecto de execução.

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