Em entrevista ao Computerworld antes das negociações com a IBM, o CEO e presidente da Sun, Jonathan Schwartz, considerou que o ambiente económico acabará por beneficiar a empresa que dirige.O executivo pensa que a depressão económica fará com que os gestores de TI estejam mais abertos à mudança. Esse aspecto vai ajudar a empresa que lidera e a sua estratégia baseada no open-source.
Computerworld – O que está a fazer para ajudar os clientes a enfrentar a crise económica?
Jonathan Schwartz – Nós estamos “pré-configurados” para a depressão económica. Se tivermos em conta as despesas que envolvem as operações de um centro de dados, primeiro há as instalações em si, o espaço físico, o consumo energético. Por isso todo o trabalho que fazemos em relação à eficácia energética e para obter um desempenho óptimo acaba por ajudar, é porque na realidade o ambiente acaba por ser uma despesa operacional para os nossos clientes.
E na medida em que podemos ajudá-los a baixar o seu impacto ambiental, estaremos também a baixar a sua despesa. Esse é claramente a tarefa principal.
O segundo elemento das despesas é o licenciamento de software, e possivelmente a maior licença que as empresas pagam são as das bases de dados proprietárias. O segundo elemento dessa lista são o servidores aplicacionais proprietários e a infra-estrutura aplicacional. Estive há pouco tempo com um cliente que não fazia ideia de que tinha perto de 2000 programadores a trabalhar com a base de dados MySQL, porque não fazia parte dos padrões de compra da empresa. Mas entretanto tinha-se tornado o padrão de base de dados de facto. Ele não se tinha apercebido de que podia obter o nível de produtividade conseguido, com uma base de dados de código aberto.
O mesmo é verdade para o mercado de servidores aplicacionais. O OpenSolaris tem suporte de múltiplos fabricantes e para várias plataformas, e quando o código é aberto , esses ambientes não exigem suporte e não se tem de pagar por ele. E depois permitimos aos nossos clientes que querem subscrever ambientes de produção, que paguem pela versão com suporte.
CW – Com a crise espera mesmo que os clientes, a curto prazo, troquem a base de dados Oracle por uma MySQL?
JS – Sem dúvida. Agora isso não significa que estão a deixar a tecnologia da Oracle – que é uma empresa fantástica, que construiu uma boa base de dados. Mas no campo das bases de dados já não faz sentido haver a abordagem de adoptar uma base de dados para todas as situações.
CW – No seu blog fala sobre expandir agressivamente a base de clientes. Como pode o servidor Sparc Enterprise T5440 ajudar a fazer isso?
JS – É um pouco improvável que este servidor seja o primeiro sistema a ser comprado por um novo cliente. É mais provável escolherem um sistema Niagara. Só considerando o preço, é muito frequente os clientes gastarem 50 mil a 100 mil dólares no primeiro servidor. E é nesse nível de preços que está posicionado o novo sistema. O Niagara como um todo dá-nos acesso a um mercado mesmo representativo de um espaço de problemas único. Não vemos a IBM com o seu System P, no espaço do Niagara.
O que traz novos clientes à Sun é a diferenciação e a inovação. Os clientes querem velocidade, poupança de energia, ou menos ocupação de espaço. Esses aspectos quando são acumulados em grandes centros de dados, representam dinheiro real para muito clientes.
A Sun promove a sua reputação como empresa de rupturas, do ponto de vista da tecnologia. Mas o que significará ser de ruptura no futuro? É preciso tomar cuidado. Devemos ser de ruptura na indústria mas não podemos ser assim com os clientes. Vou dar um bom exemplo de como a Sun vai ser disruptiva nos próximos 12 meses. Fomos muito agressivos na promoção do Opensolaris, e existem muitos fabricantes de armazenamento que têm ficado muito entusiasmados com a perspectiva de adoptar sistemas operativos de código aberto, desde o momento em que fiquem alojados em servidores.
Como se viu com o Thumper – uma plataforma de armazenamento com 48 TB baseado no sistema de ficheiros ZFS – estamos a planear pegar no Solaris e alargar todas as competências, conhecimento, e ecossistema desenvolvido no negócio de servidores para o negócio de armazenamento. Isso agora significa que as plataformas de código aberto estarão no coração do armazenamento open-source à medida que se desenvolve como categoria de mercado, e nós tencionamos ser um líder. Isso rompe muito com a concorrência.
CW – Que papel desempenham o medo, incerteza e dúvida, no mercado dos servidores hoje em dia? Estou a perguntar isto porque os defensores do Linux não parecem perder uma oportunidade para explicar porque o referido sistema operativo vai esmagar o Solaris em determinado momento. Como se contraria isso?
JS – Não prestamos muita atenção a isso; damos mais aos clientes. Nós estamos bastante alinhados com a comunidade Linux. Não somos inimigos – e nós sabemos que existem tipos a assumirem atitudes emocionais sobre o assunto.Mas o nosso enfoque é atacar os fabricantes proprietários que estão a causar aos nossos clientes muitas preocupações. E quanto mais nos focamos na resolução dos problemas dos clientes, mais adoptam o software de código-aberto.
CW – Algumas pessoas pensam que os actuais problemas económicos vão acelerar aadopção de tecnologias de software como um serviço. Quais são os seus pensamentos sobre isso, e como é que os seus produtos vão ser alinhados para suportar os SaaS?
JS – Os clientes sob stress estão abertos a mudar. E isso que noto sobre cada cliente com quem falo, especialmente actualmente. Isso quer dizer que estão abertos a mudar da alçada de fabricantes de software e armazenamento proprietário, mais interessados em adoptar o software como um serviço, mais abertos a mudar para o software livre. E isso gera oportunidades para a Sun. Penso que as portas vão estar mais abertas no próximo ano, do que alguma vez estiveram.
“A inovação raramente surge numa ‘bolha’”
CW – De onde virá a inovação? Receia-se que o investimento vai secar.
JS – A inovação raramente surge numa bolha. A necessidade é a mãe da invenção, portanto acredite, as pessoas estão a tornar-se muito mais inovadoras ao mesmo tempo que estou a falar. Porquê? Têm de o fazer. Se o orçamento apenas caiu 50%, prometo que tudo está em cima da mesa. Não há melhor altura para iniciar uma empresa do que agora mesmo. Pode ser difícil encontrar fundos, mas não há melhor altura para olhar para as tecnologias legadas e perceber quais precisam de ser substituídas, além do interesse especial dos clientes em alimentarem ideias novas.
CW – Se isso for verdade, estão a considerar quaisquer mudanças onde o investimento da Sun está a ser gasto?
JS – Em geral, estamos a olhar para formas de aumentar a investigação e desenvolvimento. Isso não quer dizer em tudo. Significa reduzir em metade nas áreas de mercado que realmente representam um retorno de receitas claro.
Voltando ao T5440, embora a plataforma Niagara seja um negócio de mais de mil milhões de dólares, é preciso recordar, que o desenvolvimento do primeiro chip começou em 2001. A investigação e desenvolvimento exige paciência, disciplina e rigor. Não vamos fazer mudanças no trimestre, nem mesmo no semestre, que serão apenas episódicas ou efémeras, porque há uma depressão.




