Importância da VoIP gera consenso entre operadores fabricantes e regulador

18 de Maio de 2006 às 22:05:54 por João Nóbrega

A VoIP representa uma mudança no actual paradigma do negócio das comunicações. Esta foi a ideal central que atravessou todo o debate “VoIP: Mudança fundamental ou mais do mesmo?” entre operadores e fabricantes de telecomunicações e o regulador ANACOM.

Qualidade de serviço e segurança são os factores chave de sucesso para que as soluções baseadas em tecnologias de VoIP possa representar, de facto, uma mudança do actual paradigma do negócio das comunicações. Foi esta a grande conclusão do colóquio “VoIP: Mudança fundamental ou mais do mesmo?”, organizado pela APDC e que reuniu operadores e fabricantes de telecomunicações e o regulador ANACOM, que se mostrou preocupada com a interligação entre VoIP e as redes públicas de comunicações, tendo anunciado a criação da numeração 30 para comunicações VoIP. A questão da numeração geográfica e do acesso aos serviços de emergência é uma das preocupações do regulador, precisamente numa altura em que a Comissão Europeia prepara alteração ao quadro regulamentar das comunicações electrónicas.


 



O evento contou com duas intervenções de fabricantes, a Cisco Systems e a Siemens, que levantaram questões tais como: as comunicações unificadas na perspectiva da sua implicação em termos de custos e a mudança de paradigma que significa a utilização da tecnologia VoIP.


 



A primeira intervenção do colóquio esteve a cargo de Tim Stone, da Cisco Systems, que centrou a sua apresentação na questão das comunicações unificadas. “A tecnologia VoIP é bastante interessante para o segmento empresarial, qualquer que seja a dimensão das empresas, uma vez que permite ter comunicações unificadas ao mesmo tempo que reduz os custos com as mesmas”, frisou, tendo acrescentaque: “a VoIP simplifica as comunicações, que devido às crescente inovação tecnológicas têm vindo a tornar-se em algo muito complicado”.


 


Todavia, considerou que: “para a VoIP ter sucesso é necessário que haja qualidade de serviço e segurança, uma vez que as empresas não pretendem apenas comunicações a mais baixo custo, mas redes inteligentes e que respondam às suas necessidades”.


 


Ameaça ou oportunidade


 


Seguiu-se a primeira mesa redonda do colóquio, que sob o tema “VoIP – ameaça ou oportunidade?”. Neste debate, Artur Miranda, da COLT, defendeu que a “VoIP representa uma nova forma de abordagem aos clientes, de lhes apresentar soluções de voz, podendo explicar-lhes as vantagens directas e indirectas que lhes estão associadas”.


 


“Há uma alteração, uma evolução no mercado das comunicações, que leva a que os operadores dêem mais atenção aos seus clientes, às suas necessidades”, afirmou por seu lado, José Luís Cardoso, da AR Telecom. “Está a ocorrer uma mudança extraordinária neste mercado, uma vez que há uns anos atrás o que os operadores de telecomunicações vendiam era um acesso de voz e depois é que vinham os outros serviços, agora os operadores vendem pacotes de serviços onde a voz é mais um”, acrescentou.


 


Para Pedro Carlos, da Novis, a VoIP “representa tanto uma ameaça como uma oportunidade”. “A VoIP pode ser uma ameaça porque a indústria das telecomunicações ainda se suporta muito na margem do serviço de voz, por outro lado pode constituir uma oportunidade, principalmente no segmento empresarial, uma vez que é uma ferramenta flexível, que permite dar resposta às diferentes forma de comunicar das empresas”.
Xavier Rodriguez-Martin, da Oni, frisou que: “os operadores terão de reformular os seus modelos de negócio”, mas considerou que “a VoIP é apenas uma evolução do serviço fixo de voz”. A intervenção de Manuel Garcia, da PT, centrou-se na necessidade de os operadores integrarem a nova tecnologia. “Os operadores terão de saber enquadrar esta nova tecnologia que vai reformular o seu negócio, uma vez que ainda não se sabe se os clientes querem ou sentem a necessidade da mesma”, acrescentou.


 


Quanto à questão da estabilização da tecnologia VoIP, todos os participantes na mesa-redonda consideraram haver ainda um longo caminho a percorrer, tanto no que concerne à integração das plataformas VoIP como em relação às plataformas de serviços.


 



Outra questão consensual entre os vários oradores foi a importância de se conhecerem as necessidades dos clientes e de lhes oferecer soluções que vão de encontro a essas mesmas necessidades.


 



A globalização, com a existência de operadores de VoIP globais, foi a temática que encerrou esta mesa-redonda. Sobre este tema os intervenientes no debate consideraram que nada há a fazer, pois esta já é uma realidade. A aposta deverá ser em serviços simples, com qualidade e segurança, algo que falta à maior parte desses operadores globais.


 


Mudança de paradigma


 



O tema “Oferta centrada no VoIP” foi introduzido por Paulo Garrido, da Siemens, o Key-note Speaker desta segunda sessão. Para este orador “a VoIP implica uma mudança de paradigma, isto porque já estão a aparecer novos operadores em concorrência com os incumbentes, assim como já há muitos operadores tradicionais a adaptar as suas redes tradicionais para VoIP”. “O sucesso da VoIP dependerá da oferta agregada de serviços e não apenas no facto do serviço de voz ser gratuito. O importante será conhecer bem as necessidades dos clientes para se poder fazer face a uma concorrência que irá ser feroz, uma vez que não há muitas barreiras à entrada de novos operadores neste mercado”, concluiu Paulo Garrido.


 



Ferrari Careto, da APDC, ao introduzir as questões a debater na mesa redonda que se seguiu, aludiu ao facto de a VoIP poder representar uma nova forma de dividir o mercado entre operadores incumbentes e novos operadores, assim como realçou o facto de alguns dos operadores tradicionais já estarem a efectuar a transição das suas redes tradicionais para redes IP. Outro aspecto realçado pelo moderador foi o facto de a VoIP poder vir retirar clientes ao serviço móvel de voz, invertendo assim a tendência que se tem verificado nos últimos anos.


 



Por seu lado, Manuel Castelo Branco, da Media Capital Telecomunicações, iniciou o debate afirmando que: “os clientes primeiro olham para o preços mas os operadores terão de estar conscientes da necessidade de lhes oferecer serviços diferenciadores para que estes não mudem de operador”.


 


 E acrescentou: “há uma barreira quase ergonómica ao acesso via VoIP, e há outras barreiras como seja a necessidade de banda larga, de efectuar o download, de adquirir auscultadores e ainda a necessidade de se ter alguém que tenha vontade de falar, o que não acontece nas comunicações de voz tradicionais, em que basta ter o telefone e marcar o número”.


 



Já Luís Ávila, da Netcall, considerou que “no mercado empresarial o mais importante são os serviços e a qualidade das comunicações”. A opinião de Leandro Fernandes, da G9,  foi no mesmo sentido. “Apesar de o preço ser importante, é o serviço que faz a diferença”. Para Celso Meira, da Redvo, o facto de o mercado ver a VoIP como um serviço de custo zero tem sido o mais complicado.


 



No que se refere às barreiras à utilização da VoIP, os intervenientes nesta segunda mesa redonda consideraram que é necessário educar o mercado, no sentido de lhe mostrar que nem tudo é gratuito.


 


Ainda novos paradigmas


 



Em relação às barreiras à utilização do VOIP, Luís Ávila considerou que “a evolução dos equipamentos terminais irá permitir uma rápida penetração do VoIP pois torna mais fácil a sua utilização”. No que respeita ao modelo de negócio VoIP, todos os participantes consideraram que um modelo de negócio tendencialmente gratuito não é sustentável a longo prazo, assim como afirmaram a necessidade de existir uma forte aposta na oferta integrada de serviços, sendo o serviço de voz apenas mais um desses serviços.


 



Quanto ao caso português, Luís Ávila reconheceu que “os portugueses estão muito abertos a experimentar esta nova tecnologia e o mercado português não está atrasado em relação ao que se passa no resto da Europa. Celso Meira, da Redvo, também reconheceu que o mercado português está ao nível do europeu e que a VoIP irá ter uma maior visibilidade assim que começar a surgir a numeração 30.


 



Manuel Castelo Branco mostrou-se menos optimista. “Temos uma baixa penetração de banda larga e as opções do regulador não foram as mais liberais o que poderá dificultar o crescimento da VoIP.” “A VoIP é conhecida no mercado empresarial e junto dos internautas. As possibilidades da VoIP ainda são uma surpresa para a generalidade dos portugueses”, concluiu Leandro Fernandes.


 



A convergência entre VoIP e as comunicações móveis foi o tema que finalizou a mesa redonda. Os vários intervenientes neste debate consideraram que o facto de a VoIP ter uma qualidade superior às comunicações de voz móveis poder levar a que os consumidores voltem a migrar para as comunicações de voz fixa.


 


VoIP cria novos desafios à regulação


A questão da regulação foi abordada por Luís Manica da ANACOM. O representante do regulador explicou o que se está a fazer em Portugal e em vários países europeus no que se refere à regulação da VoIP. Esta não é uma questão consensual na Europa, uma vez que uns países adoptaram uma regulação mais liberal enquanto outros foram mais cautelosos.


 


A ANACOM mostrou-se especialmente preocupada com a questão da numeração geográfica e do acesso aos serviços de emergência. No primeiro caso, a solução adoptada foi a criação da numeração 30 para os utilizadores nómadas de VoIP, enquanto que no caso do acesso aos serviços de emergência a ANACOM considera que os operadores de VoIP terão de informar sempre os seus clientes das limitações que se colocam ao acesso ao 112.

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