Nicholas Negroponte, o homem que idealizou o laptop barato, ou para os pobres, diz que é hora de parar com a Lei de Moore e que o sistema operativo Linux precisa de uma dieta.
Desde que lançou o projeto de um laptop com objectivos educativos cujo preço alvo é 100 dólares, Nicholas Negroponte, um dos fundadores do MIT, de onde se desligou para criar a organização One Laptop Per Child (OLPC), tem vindo a coleccionar ataques da indústria de Tecnologias de Informação.
Por exemplo, o chairman da Microsoft, Bill Gates, criticou o projeto de Negroponte, dizendo que os telemóveis/PDA serão, esses sim, os computadores portáteis do futuro.
O presidente da Intel, Paul Otellini, apresentou sua versão de PC educacional no Brasil, o Edu-Wise, um laptop que custaria cerca de 400 dólares e correria num sistema operacional completo, como o Windows.
Até Jonathan Schwartz, presidente da Sun Microsystems e um fervoroso defensor do software aberto e das comunidades online, não deixou de criticar Negroponte, afirmando, que o guru deveria focar o seu discurso no acesso livre de todas as crianças e não no equipamento”, disse o executivo.
Mas há razões para tantos ataques? Com o seu laptop barato e leve, Negroponte está a fazer, na verdade, um ataque frontal à indústria de TI, que tem como motor a inovação, de software com mais e mais recursos e de hardware mais veloz, o seu modelo lucrativo de negócio.
Nesta entrevista, Negroponte fala dos desafios do projecto e atira-se até ao Linux.
Computerworld
Países interessados no seu projecto, como por exemplo o Brasil, têm elevados índices de violência e criminalidade. Como é que os governos interessados podem prevenir que os laptops sejam roubados das crianças?
Nicholas Negroponte
Existem milhares de carros roubados todos os dias nos Estados Unidos, mas nenhum dos grandes camiões que servem os correios foi roubado. Isto não é a prioridade do governo. É por que não existe um mercado secundário (para este tipo de produto). Por outro lado, o nosso laptop terá um visual único.
E mesmo que não seja totalmente seguro – afinal, as pessoas roubam da Igreja e da Cruz Vermelha -, uma das maneiras de desencorajar roubos é deixar que os pais tentem vender sozinhos os portáteis dos seus filhos.
Por exemplo, no Maine(Estado norte-americano), onde temos cerca de 50 mil portáteis – são iBooks, da Apple, fáceis de serem revendidos -, eles são desactivados automaticamente se o utilizador não aceder ao servidor da escola após alguns dias. Não tenho informações sobre nenhum roubo na área.
Computerworld
A configuração dos modelos que serão entregues em 2007 é a mesma da primeira geração anunciada do projeto?
Nicholas Negroponte
A configuração evolui constantemente. A maior mudança feita recentemente é que a manivela que fornecia energia por acção humana foi transferida do portátil para o adaptador AC.
Isso é importante, porque adaptadores AC vivem no chão e podem ser naturalmente accionados com os pés (um adaptador AC fornece energia para o aparelho, como os usados em telemóveis. No caso dos notebooks, haverá um pedal para fornecer energia ao equipamento, mesmo sem ligações eléctricas.)
Computerworld
Como é que este projeto dará suporte aos notebooks de 100 dólares?
Nicholas Negroponte
Em cada país, haverá uma equipa que dará suporte tanto ao hardware como ao software, além de desenvolver acompanhamento pedagógico. Os custos indirectos para a organização OLPC serão entre 1 e 2 dólares (no máximo) por notebook para a ajuda relacionada com questões técnicas. Questões como a garantia serão negociadas entre a Quanta (fabricante dos notebooks) e o governo de cada país interessado.
Computerworld
Como é que a OLPC vai formar essas equipas regionais responsáveis em cada país pelo desenvolvimento do projecto?
Nicholas Negroponte
Como é sabido, o código aberto envolve desenvolvimento em comunidade. A localização do produto será feita dentro do próprio país. Nós daremos suporte a esses equipas e continuaremos a evoluir o software e o conteúdo. Um dos papéis da OLPC será a intercolaboração com os países.
Actualmente, a “lei” que regula a evolução do mercado de tecnologia de informação contempla a evolução tecnológica, em que os fabricantes têm a certeza que vão vender e facturar mais com computadores mais poderosos ou monitores mais amplos.
O segredo por trás do projecto do notebook de 100 dólares parece ser a escala. Nenhum fabricante, na sua plena consciência, pensaria em construir um monitor LCD de 7 polegadas se não tivesse a certeza de que o equipamento seria distribuído em larga escala.
A escala merece atenção. Quando vir e sentir o nosso laptop, descobrirá que o monitor de 7 polegadas é extraordinariamente bom. A máquina tem um tamanho pequeno, mesmo infantil, é leve e mais parece um livro do que uma pasta de couro.
Vejo a Lei de Moore como algo que foi seguido durante esses anos com a adição de algumas funcionalidades e novidades. Tudo que estamos a dizer é: parem. Usem a Lei de Moore para fazer aparelhos menos caros para que crianças aprendam.
Computerworld
Acha que o notebook de 100 dólares vai contra essa lei do mercado tecnológico?
Nicholas Negroponte
A maioria das organizações com propostas humanitárias atinge apenas o que consegue. Nós estamos numa posição única para conduzir o mercado, criar novos produtos e mudar estratégias corporativas, e vamos fazer isso.
Computerworld
Bill Gates fez recentes críticas ao notebook e à OLPC, especialmente a presença da manivela, o pequeno monitor LCD e a limitada memória interna, além de dizer que os telemóveis serão os PC portáteis do futuro. Acha que têm futuro?
Nicholas Negroponte
Os telemóveis são uma importante parte do mundo digital e vão sê-lo ainda mais à medida que se tornarem menos uma central de voz e mais uma central de dados. Mas os telemóveis são, por definição, pequenos dispositivos móveis que não servem para leituras.
Os livros têm um tamanho padrão por um motivo. Existe uma relação entre o tamanho do monitor e a utilização do equipamento. Os atlas tendem a ser maiores que livros, e por aí adiante. As considerações de Bill Gates sobre a manivela foram um equívoco. Funcionar com a energia humana é a chave para o sucesso.
O consumo de energia médio dos laptops de 100 dólares será de 2 Watts, enquanto os notebooks convencionais consomem entre 30 e 40 Watts. Sinceramente, não consegui entender as críticas de Bill Gates em relação à dimensão do monitor/écran já que ela é do mesmo tamanho, até ao último milímetro, do Origami (computador ultra-móvel que se assemelha a um tablet PC apresentado pela Microsoft durante a CeBIT).
Computerworld
Recentemente, Paul Otellini, CEO da Intel, apresentou no Brasil o projeto de um notebook educacional, chamado Edu-Wise, que custará 400 dólares. Acha que poderá ser um concorrente do laptop a 100 dólares?
Nicholas Negroponte
Nós não andamos neste mercado para competir. Somos uma organização humanitária que não visa ao lucro e cuja proposta é levar o maior número de notebooks às crianças de todo o mundo. Quando mais pessoas juntarmos (para ajudar), melhor.
Nós realmente desejamos boas vindas à Intel e esperamos que encontre formas de baixar ainda mais o preço de 400 dólares. Espero que o notebook da OLPC tenha representado um papel inspirador para que eles desenvolvessem este projeto.
Computerworld
Como investigador no sector da tecnologia, como é que a usa diariamente? Por exemplo, utiliza o leitor MP3 player?
Nicholas Negroponte
Eu gasto, no mínimo, 10 horas por dia à frente de um notebook. Não faço nem recebo ligações por telefone, vejo televisão ou ouço música. E não sugiro essa rotina para os outros.
Computerworld
Durante o LinuxWorld, realizado em Boston, disse que o notebook precisa de um sistema operativo mais leve do que os existentes no mercado. Acha que o Linux não é leve o suficiente para os notebooks de 100 dólares?
Nicholas Negroponte
O Linux também precisa de fazer uma dieta. Digo isso por que já existem alguns sistemas operacionais leves em Linux para handhelds.
O meu ponto no Linux World foi mais geral. É uma tendência natural que qualquer programador de computadores ou designer de sistemas adicione funções e opções (ao sistema operacional em Linux). Nós adicionamos mais e mais códigos.
Seria errado que eu sugerisse que apenas o (sistema operacional Windows) XP (da Microsoft) faz isso. Muitos sistemas baseados em Linux tornaram-se pesados também, incluindo o Open Office.
Algumas companhias recompensam ou medem o trabalho dos programadores pelo número de linhas de código escritas. Eu tenho uma ideia que talvez possa ajudar a “obesidade” do software: paguem o programador de computadores, na proporção, pelo número de linhas que podem ser removidas.
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